Capa do CD

No início de 1992 resolvemos que, em vez de produzirmos um “videoclip” para o lançamento do disco “V”, iríamos aceitar o  convite da MTV para a gravação do então “novo programa” acústico. – Jóia! Não temos que fazer clip!

Ouvia-se em coro, o que definitivamente se transformou em mais um estimulante desafio. Pensávamos em imagem, um mega videoclip se estentendo por mais de uma hora no ar, suprindo, assim, nossa dificuldade em cumprir as obrigações em relação à promoção de nosso trabalhão.

Naquele momento, a marca “Acústico” estampada na capa de um disco não tinha o “sentido” que tem hoje, não cogitávamos a possibilidade de se transformar o programa de televisao em disco.

Felizmente não perdemos a oportunidade de registrar na íntegra o áudio da apresentação, o que nos traz de volta a Legião Urbana interpretando ao vivo. Espontânea e surpreendentemente à vontade, nossas inesquecíveis canções e também inéditas versões com apenas dois violões, bateria, percussão e uma grande e inigualável voz.

Dado Villa-Lobos, 1999

  1. Baader - Meinhof Blues Tocar
    • (Dado Villa-Lobos/ Renato Russo/ Marcelo Bonfá)

      A violência é tão fascinante
      E nossas vidas são tão normais
      E você passa de noite e sempre vê
      Apartamentos acesos
      Tudo parece ser tão real
      Mas você viu esse filme também.

      Andando nas ruas
      Pensei que podia ouvir
      Alguém me chamando
      Dizendo meu nome.

      Já estou cheio de me sentir vazio
      Meu corpo é quente e estou sentindo frio
      Todo mundo sabe e ninguém quer mais saber
      Afinal, amar o próximo é tão demodé.

      Essa justiça desafinada
      É tão humana e tão errada
      Nós assistimos televisão também
      Qual é a diferença?

      Não estatize meus sentimentos
      Pra seu governo,
      O meu estado é independente.

  2. "Índios" Tocar
    • (Renato Russo)

      Quem me dera, ao menos uma vez,
      Ter de volta todo o ouro que entreguei
      A quem conseguiu me convencer
      Que era prova de amizade
      Se alguém levasse embora até o que eu não tinha.

      Quem me dera, ao menos uma vez
      Esquecer que acreditei que era por brincadeira
      Que se cortava sempre um pano-de-chão
      De linho nobre e pura seda.

      Quem me dera, ao menos uma vez,
      Explicar o que ninguém consegue entender:
      Que o que aconteceu ainda está por vir
      E o futuro não é mais como era antigamente.

      Quem me dera, ao menos uma vez,
      Provar que quem tem mais do que precisa ter
      Quase sempre se convence que não tem o bastante
      Fala demais por não ter nada a dizer.

      Quem me dera, ao menos uma vez,
      Que o mais simples fosse visto como o mais importante,
      Mas nos deram espelhos
      E vimos um mundo doente.

      Quem me dera, ao menos uma vez,
      Entender como um só Deus ao mesmo tempo é três
      E esse mesmo Deus foi morto por vocês -
      É só maldade então, deixar um Deus tão triste.

      Eu quis o perigo e até sangrei sozinho.
      Entenda - assim pude trazer
      Você de volta pra mim
      Quando descobri que é sempre só você
      Que me entende do iní­cio ao fim
      E é só você que tem a cura do meu vício
      De insistir nessa saudade que eu sinto
      De tudo que eu ainda não vi.

      Quem me dera, ao menos uma vez,
      Acreditar por um instante em tudo que existe
      E acreditar que o mundo é perfeito
      E Que todas as pessoas são felizes...

      Quem me dera, ao menos uma vez,
      Fazer com que o mundo saiba que seu nome
      Está em tudo e mesmo assim
      Ninguém lhe diz ao menos obrigado.

      Quem me dera, ao menos uma vez,
      Como a mais bela tribo, dos mais belos índios,
      Não ser atacado, por ser inocente.

      Eu quis o perigo e até sangrei sozinho.
      Entenda - assim pude trazer
      Você de volta pra mim
      Quando descobri que é sempre só você
      Que me entende do iní­cio ao fim
      E é só você que tem a cura do meu vício
      De insistir nessa saudade que eu sinto
      De tudo que eu ainda não vi.

      Nos deram espelhos e vimos um mundo doente -
      Tentei chorar e não consegui.

  3. Mais do Mesmo Tocar
    • (Dado Villa-Lobos/ Renato Russo/ Renato Rocha/ Marcelo Bonfá)

      Ei menino branco o que é que você faz aqui
      Subindo o morro pra tentar se divertir
      Mas já disse que não tem
      E você ainda quer mais
      Por que você não me deixa em paz?

      Desses vinte anos nenhum foi feito pra mim
      E agora você quer que eu fique assim igual a você
      É mesmo, como vou crescer se nada cresce por aqui?
      Quem vai tomar conta dos doentes?
      E quando tem chacina de adolescentes
      Como é que você se sente?

      Em vez de luz tem tiroteio no fim do túnel.
      Sempre mais do mesmo
      Não era isso que você queria ouvir?

      Bondade sua me explicar com tanta determinação
      Exatamente o que eu sinto, como penso e como sou
      Eu realmente não sabia que eu pensava assim
      E agora você quer um retrato do país
      Mas queimaram o filme
      E enquanto isso, na enfermaria
      Todos os doentes estão cantando sucessos populares.
      (e todos os índios foram mortos).

  4. Pais e Filhos Tocar
    • (Dado Villa-Lobos / Renato Russo / Marcelo Bonfá)

      Estátuas e cofres
      E paredes pintadas
      Ninguém sabe o que aconteceu
      Ela se jogou da janela do quinto andar
      Nada é fácil de entender.

      Dorme agora: É só o vento lá fora.

      Quero colo
      Vou fugir de casa
      Posso dormir aqui com vocês?
      Estou com medo
      Tive um pesadelo
      Só vou voltar depois das três.

      Meu filho vai ter nome de santo
      Quero o nome mais bonito.

      É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã
      Por que se você parar pra pensar, na verdade não há.

      Me diz, por que é que o céu é azul
      Me explica a grande fúria do mundo
      São meus filhos que tomam conta de mim
      Eu moro com a minha mãe mas meu pai vem me visitar
      Eu moro na rua, não tenho ninguém
      Eu moro em qualquer lugar
      Já morei em tanta casa que nem me lembro mais
      Eu moro com os meus pais

      É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã
      Por que se você parar pra pensar, na verdade não há.

      Sou uma gota d'água
      Sou um grão de areia
      Você me diz que seus pais não entendem
      Mas você não entende seus pais.

      Você culpa seus pais por tudo
      E Isso é absurdo
      São crianças como você.

      O que você vai ser quando você crescer?

  5. Hoje a Noite Não Tem Luar Tocar
    • (A.Monroy/C. Villa De La Torre | vs: Carlos Colla)

      Ela passou do meu lado
      'Oi amor' - eu lhe falei
      'Você está tão sozinha'
      Ela então sorriu pra mim
      Foi assim que a conheci
      Naquele dia junto ao mar
      As ondas vinham beijar a praia
      O sol brilhava de tanta emoção
      Um rosto lindo como o verão
      E um beijo aconteceu

      Nos encontramos à noite
      Passeamos por aí
      E num lugar escondido
      Outro beijo lhe pedi
      Lua de prata no céu
      O brilho das estrelas no chão
      Tenho certeza que não sonhava
      A noite linda continuava
      E a voz tão doce que me falava
      O mundo pertence a nós

      E hoje a noite não tem luar
      E eu estou sem ela
      Já não sei onde procurar
      Não sei onde ela está
      Hoje a noite não tem luar
      E eu estou sem ela
      Já não sei onde procurar
      Onde está meu amor?

  6. Sereníssima Tocar
    • (Dado Villa-Lobos / Renato Russo / Marcelo Bonfá)

      Sou um animal sentimental
      Me apego facilmente ao que desperta meu desejo
      Tente me obrigar a fazer o que não quero
      E você vai logo ver o que acontece.
      Acho que entendo o que você quis me dizer
      Mas existem outras coisas.

      Consegui meu equilíbrio cortejando a insanidade,
      Tudo está perdido mas existem possibilidades.
      Tínhamos a idéia, mas você mudou os planos
      Tínhamos um plano, você mudou de idéia
      Já passou, já passou - quem sabe outro dia.

      Antes eu sonhava, agora já não durmo
      Quando foi que competimos pela primeira vez?
      O que ninguém percebe é o que todo mundo sabe
      Não entendo terrorismo, falávamos de amizade.

      Não estou mais interessado no que sinto
      Não acredito em nada além do que duvido
      Você espera respostas que eu não tenho
      Não vou brigar por causa disso
      Até penso duas vezes se você quiser ficar.

      Minha laranjeira verde, por que está tão prateada?
      Foi da lua dessa noite, do sereno da madrugada
      Tenho um sorriso bobo, parecido com soluço
      Enquanto o caos segue em frente
      Com toda a calma do mundo.

  7. Teatro Dos Vampiros Tocar
    • (Dado Villa-Lobos / Renato Russo / Marcelo Bonfá)

      Sempre precisei de um pouco de atenção
      Acho que não sei quem sou
      Só sei do que não gosto.
      E destes dias tão estranhos
      Fica a poeira se escondendo pelos cantos

      Esse é o nosso mundo:
      O que é demais nunca é o bastante
      E a primeira vez é sempre a última chance.
      Ninguém vê onde chegamos:
      Os assassinos estão livres, nós não estamos.

      Vamos sair - mas não temos mais dinheiro
      Os meus amigos todos estão procurando emprego
      Voltamos a viver como há dez anos atrás
      E a cada hora que passa
      Envelhecemos dez semanas.

      Vamos lá, tudo bem - eu só quero me divertir.
      Esquecer, dessa noite ter um lugar legal pra ir...
      Já entregamos o alvo e a artilharia
      Comparamos nossas vidas
      E esperamos que um dia
      Nossas vidas possam se encontrar.

      Quando me vi tendo de viver comigo apenas
      E com o mundo
      Você me veio como um sonho bom
      E me assustei

      Não sou perfeito
      Eu não esqueço
      A riqueza que nós temos
      Ninguém consegue perceber
      E de pensar nisso tudo, eu, homem feito
      Tive medo e não consegui dormir

      Comparamos nossas vidas
      E mesmo assim, não tenho pena de ninguém.

  8. On The Way Home / Rise Tocar
    • Neil Young | Jonh Lydon/Nill Laswell

      When the dream came
      I held my breath with my eyes closed
      I went insane,
      Like a smoke ring day
      When the wind blows
      Now I won't be back till later on
      If I do come back at all
      Because you know me, and I miss you now.

      In a strange game
      I saw myself as you knew me
      When the change came,
      And you had the chance to see through me
      Though the other side is just the same

      You can tell my dream is real,
      and I love you and I miss you now
      Though we rush ahead to save our time
      We are only what we feel

      And I love you, can you feel it now?
      I could be wrong I could be right
      I could be wrong I could be right
      I could be wrong I could be right
      I could be black I could be white
      I could be right I could be wrong
      I could be white I could be black

      The time has come your second skin
      The cost so high, the gain so low
      Walk through the valley
      The written word is a lie
      May the road rise with you

      I could be wrong I could be right
      I could be black I could be white
      The time has come your second skin
      The cost so high, the gain so low
      Walk through the valley
      The written word is a lie
      May the road rise with you

      Anger is an energy.

  9. Head On Tocar
    • William Reid / James Reid

      As soon as I get my head round you
      I come around catching sparks off you
      I get an eletric charge from you
      That seconde hand living it just won't do

      And the way I feel tonight
      Well I could die and I wouldn't mind
      And there's something going on inside

      Makes you want to feel, makes you want to try
      Makes you wanna blow the stars from the sky
      I can't stand up, I cant' cool down
      I can't get my head off the ground

      As soon as I get my head round you
      I come around catching sparks off you
      And all I ever got from you
      Was all ever took from you

      And the world could die in pain
      And I wouldn't feel no shame
      And there's nothing holding me to blame
      Makes you want to feel makes you want to try
      Makes you want to blow the stars from sky

      I'm taking myself to the dirty part of town
      Where all my troubles can't be found

  10. The Last Time I Saw Richard Tocar
    • Joni Mitchell

      Last time I saw Richard was Detroit in 68
      And he told me all romantics meet the same fate
      Someday, cynical and bitter and boring someone
      In some dark cafe
      You laugh, he said you think you're immune,
      Go look at your eyes
      They're full of moon
      You like roses and kisses and pretty men to tell you
      All those pretty lies, pretty lies
      When you gonna realize they're only pretty lies
      Only pretty lies, pretty lies

      He put a quarter in the wurlitzer, and he pushed
      Three buttons and the thing began to whirl
      And a waitress came by a fishnet stockings and a bow tie
      And she said: "drink up now it's getting on time to close"
      Richard, you haven't really changed, I said
      That's just now you're romanticizing some pain that's in your head
      You've got tombs in your in your eyes, but the songs
      You punched are dreaming
      Listen, they talk of love so sweet
      When you gonna get yourself back on your feet?
      Oh and love can be so sweet, love so sweet

      Richard got married to a figure skater
      And he bought her a dish washer and a coffe percolator
      And he drinks at home now most night with the TV on
      And all the house lights left up bright
      I'm gonna blow this damn candle out
      I don't want nobody comin'over to my table
      I've got nothing to talk to anybody about
      All good dreamers passes this away someday
      Hidin' behind bottles in dark cafes
      Dark cafes
      Only this darkness before
      I get my gorgeous wings
      And fly away
      Only a phase, these dark cafe days

  11. Metal Contra As Nuvens Tocar
    • (Dado Villa-Lobos / Renato Russo / Marcelo Bonfá)
      I
      Não sou escravo de ninguém
      Ninguém senhor do meu domínio
      Sei o que devo defender
      E por valor eu tenho
      E temo o que agora se desfaz.

      Viajamos sete léguas
      Por entre abismos e florestas
      Por Deus nunca me vi tão só
      É a própria fé o que destrói.
      Estes são dias desleais.

      Eu sou metal - raio, relâmpago e trovão
      Eu sou metal, eu sou o ouro em seu brasão
      Eu sou metal: me sabe o sopro do dragão.

      Reconheço meu pesar:
      Quando tudo é traição,
      O que venho encontrar
      É a virtude em outras mãos.

      Minha terra é a terra que é minha
      E sempre será minha terra
      Tem a lua, tem estrelas e sempre terá.

       

      II
      Quase acreditei na sua promessa
      E o que vejo é fome e destruição
      Perdi a minha sela e a minha espada
      Perdi o meu castelo e minha princesa.

      Quase acreditei, quase acreditei.

      E, por honra, se existir verdade
      Existem os tolos e existe o ladrão
      E há quem se alimente do que é roubo.

      Vou guardar o meu tesouro
      Caso você esteja mentindo.

      Olha o sopro do dragão...

       

      III
      É a verdade o que assombra,
      O descaso o que condena,
      A estupidez o que destrói.

      Eu vejo tudo que se foi
      E o que não existe mais.
      Tenho os sentidos já dormentes,
      O corpo quer, a alma entende.

      Esta é a terra-de-ninguém
      E sei que devo resistir -
      Eu quero a espada em minhas mãos.

      Eu sou metal - raio, relâmpago e trovão
      Eu sou metal, eu sou o ouro em seu brasão
      Eu sou metal: me sabe o sopro do dragão.

      Não me entrego sem lutar -
      Tenho ainda coração.
      Não aprendi a me render:
      Que caia o inimigo então.

       

      IV
      - Tudo passa, tudo passará...

      E nossa história não estará pelo avesso
      Assim, sem final feliz.
      Teremos coisas bonitas pra contar.

      E até lá, vamos viver
      Temos muito ainda por fazer.
      Não olhe pra trás -
      Apenas começamos.

      O mundo começa agora -
      Apenas começamos.

  12. Há Tempos Tocar
    • (Dado Villa-Lobos / Renato Russo / Marcelo Bonfá)

      Parece cocaína, mas é só tristeza, talvez tua cidade
      Muitos temores nascem do cansaço e da solidão
      E descompasso e o desperdício herdeiros são
      Agora da virtude que perdemos.

      Há tempos tive um sonho
      Não me lembro não me lembro
      Tua tristeza é tão exata
      E hoje o dia é tão bonito
      Já estamos acostumados
      A não termos mais nem isso.

      Os sonhos vêm
      E os sonhos vão
      O resto é imperfeito.

      Dissestes que se tua voz tivesse força igual
      À imensa dor que sentes
      Teu grito acordaria
      Não só a tua casa
      Mas a vizinhança inteira.
      E há tempos nem os santos têm ao certo
      A medida da maldade
      Há tempos são os jovens que adoecem
      Há tempos o encanto está ausente
      E há ferrugem nos sorrisos
      Só o acaso estende os braços
      A quem procura abrigo e proteção.

      Meu amor, disciplina é liberdade
      Compaixão é fortaleza
      Ter bondade é ter coragem
      E Ela disse:
      - Lá em casa tem um poço mas a água é muito limpa.

  13. Eu Sei Tocar
    • (Renato Russo)

      Sexo verbal não faz meu estilo
      Palavras são erros e os erros são seus
      Não quero lembrar que eu erro também

      Um dia pretendo tentar descobrir
      Porque é mais forte quem sabe mentir
      Não quero lembrar que eu minto também

      Eu sei

      Feche a porta do seu quarto
      Porque se toca o telefone pode ser alguém
      Com quem você quer falar
      Por horas e horas e horas

      A noite acabou, talvez tenhamos que fugir sem você
      Mas não, não vá agora, quero honras e promessas
      Lembranças e estórias

      Somos pássaro novo longe do ninho

      Eu sei

  14. Faroeste Caboclo Tocar
    • (Renato Russo)

      - Não tinha medo o tal João de Santo Cristo,
      Era o que todos diziam quando ele se perdeu.
      Deixou pra trás todo o marasmo da fazenda
      Só pra sentir no seu sangue o ódio que Jesus lhe deu.
      Quando criança só pensava em ser bandido,
      Ainda mais quando com um tiro de um soldado o pai morreu
      Era o terror da cercania onde morava
      E na escola até o professor com ele aprendeu.

      Ia pra igreja só pra roubar o dinheiro
      Que as velhinhas colocavam na caixinha do altar.
      Sentia mesmo que era mesmo diferente
      Sentia que aquilo ali não era o seu lugar
      Ele queria sair para ver o mar
      E as coisas que ele via na televisão
      Juntou dinheiro para poder viajar
      E de escolha própria, escolheu a solidão

      Comia todas as menininhas da cidade
      De tanto brincar de médico, aos doze era professor.
      Aos quinze, foi mandado para o reformatório
      Onde aumentou seu ódio diante de tanto terror.

      Não entendia como a vida funcionava -
      Discriminação por causa da sua classe ou sua cor
      Ficou cansado de tentar achar resposta
      E comprou uma passagem, foi direto a Salvador.

      E lá chegando foi tomar um cafezinho
      E encontrou um boiadeiro com quem foi falar
      E o boiadeiro tinha uma passagem e ia perder a viagem
      Mas João foi lhe salvar
      Dizia ele: - Estou indo pra Brasília
      Neste país lugar melhor não há.
      Estou precisando visitar a minha filha
      Então fico aqui e você vai no meu lugar.

      E João aceitou sua proposta e num ônibus entrou no Planalto Central
      Ele ficou bestificado com a cidade
      Saindo da rodoviária, viu as luzes de Natal.
      - Meu Deus, mas que cidade linda,
      No ano-novo eu começo a trabalhar.
      Cortar madeira, aprendiz de carpinteiro
      Ganhava três mil por mês em Taguatinga

      Na sexta-feira ia pra zona da cidade
      Gastar todo o seu dinheiro de rapaz trabalhador
      E conhecia muita gente interessante
      Até um neto bastardo do seu bisavô:
      Um peruano que vivia na Bolívia
      E muitas coisas trazia de lá
      Seu nome era Pablo e ele dizia
      Que um negócio ele ia começar.

      E o Santo Cristo até a morte trabalhava
      Mas o dinheiro não dava pra ele se alimentar
      E ouvia às sete horas o noticiário
      Que sempre dizia que o seu ministro ia ajudar
      Mas ele não queria mais conversa e decidiu que,
      como Pablo, ele ia se virar
      Elaborou mais uma vez seu plano santo
      E, sem ser crucificado, a plantação foi começar.

      Logo logo os malucos da cidade souberam da novidade:
      - Tem bagulho bom ai!
      E João de Santo Cristo ficou rico
      E acabou com todos os traficantes dali.
      Fez amigos, freqüentava a Asa Norte
      E ia pra festa de rock, pra se libertar
      Mas de repente
      Sob uma má influência dos boyzinhos da cidade
      Começou a roubar.

      Já no primeiro roubo ele dançou
      E pro inferno ele foi pela primeira vez
      Violência e estupro do seu corpo
      - Vocês vão ver, eu vou pegar vocês.

      Agora o Santo Cristo era bandido
      Destemido e temido no Distrito Federal
      Não tinha nenhum medo de polícia
      Capitão ou traficante, playboy ou general.
      Foi quando conheceu uma menina
      E de todos os seus pecados ele se arrependeu.
      Maria Lúcia era uma menina linda
      E o coração dele
      Pra ela o Santo Cristo prometeu
      Ele dizia que queria se casar
      E carpinteiro ele voltou a ser
      - Maria Lúcia, pra sempre vou te amar
      E um filho com você eu quero ter.

      O tempo passa e um dia vem à porta um senhor de alta classe com dinheiro na mão
      E ele faz uma proposta indecorosa e diz que espera uma resposta.
      Uma resposta do João:
      - Não boto bomba em banca de jornal nem em colégio de criança
      Isso eu não faço não
      E não protejo general de dez estrelas, que fica atrás da mesa
      Com o cu na mão.
      E é melhor senhor sair da minha casa
      Nunca brinque com um Peixes com ascendente Escorpião.
      Mas antes de sair, com ódio no olhar, o velho disse:
      - Você perdeu sua vida, meu irmão.

      Você perdeu a sua vida meu irmão. Você perdeu a sua vida meu irmão
      Essas palavras vão entrar no coração
      E Eu vou sofrer as conseqüências como um cão.
      Não é que o Santo Cristo estava certo
      Seu futuro era incerto e ele não foi trabalhar
      Se embebedou e no meio da bebedeira descobriu que tinha outro
      Trabalhando em seu lugar
      Falou com Pablo que queria um parceiro
      E também tinha dinheiro e queria se armar
      Pablo trazia o contrabando da Bolívia e Santo Cristo revendia em Planaltina

      Mas acontece que um tal de Jeremias, traficante de renome,
      Apareceu por lá
      Ficou sabendo dos planos de Santo Cristo
      E decidiu que, com João ele ia acabar.
      Mas Pablo trouxe uma Winchester-22
      E Santo Cristo já sabia atirar
      E decidiu usar a arma só depois
      Que Jeremias começasse a brigar

      (O Jeremias, maconheiro sem-vergonha, organizou a Rockonha
      E fez todo mundo dançar)

      Desvirginava mocinhas inocentes
      E dizia que era crente mas não sabia rezar

      E Santo Cristo há muito não ia pra casa
      E a saudade começou a apertar
      - Eu vou embora, eu vou ver Maria Lúcia
      Já tá em tempo de a gente se casar.

      Chegando em casa então ele chorou
      E pro inferno ele foi pela segunda vez
      Com Maria Lúcia Jeremias se casou
      E um filho nela ele fez.

      Santo Cristo era só ódio por dentro e então o Jeremias pra um duelo ele chamou
      Amanhã às duas horas na Ceilândia, em frente ao lote 14, é pra lá que eu vou
      E você pode escolher as suas armas que eu acabo mesmo com você, seu porco traidor
      E mato também Maria Lúcia, aquela menina falsa pra quem jurei o meu amor

      Santo Cristo não sabia o que fazer
      Quando viu o repórter da televisão
      Que deu notícia do duelo na TV
      Dizendo a hora e o local e a razão

      No sábado então, às duas horas, todo o povo
      Sem demora foi lá só para assistir
      Um homem que atirava pelas costas e acertou o Santo Cristo
      E começou a sorrir.
      Sentindo o sangue na garganta,
      João olhou pras bandeirinhas e pro povo a aplaudir
      E olhou pro sorveteiro e pras câmeras e
      A gente da TV que filmava tudo ali.

      E se lembrou de quando era uma criança e de tudo o que vivera até ali
      E decidiu entrar de vez naquela dança
      - Se a via-crucis virou circo, estou aqui.

      E nisso o sol cegou seus olhos e então Maria Lúcia ele reconheceu
      Ela trazia a Winchester-22
      A arma que seu primo Pablo lhe deu

      - Jeremias, eu sou homem. coisa que você não é.
      E não atiro pelas costas não.
      Olha pra cá filha-da-puta, sem-vergonha
      Dá uma olhada no meu sangue
      E vem sentir o teu perdão.

      E Santo Cristo com a Winchester-22
      Deu cinco tiros no bandido traidor
      Maria Lúcia se arrependeu depois
      E morreu junto com João, seu protetor

      E o povo declarava que João de Santo Cristo era santo porque sabia morrer
      E a alta burguesia da cidade não acreditou na estória que eles viram na TV
      E João não conseguiu o que queria quando veio pra Brasília, com o diabo ter
      Ele queria era falar pro presidente
      Pra ajudar toda essa gente
      Que só faz sofrer.