Capa do CD

Gravado ao vivo, no Metropolitan (RJ), nos dias 08 e 09 de outubro de 1994, durante a turnê do álbum “O Descobrimento do Brasil”.

Produzido por Rafael Borges, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá

Direção Artística: Torcuato Mariano

Músicos de apoio:

Baixos: Gian Fabra | Violão e Guitarra: Fred Nascimento | Teclados: Carlos Trilha

  1. Será Tocar
    • (Dado Villa-Lobos / Renato Russo / Marcelo Bonfá)

      Tire suas mãos de mim
      Eu não pertenço a você
      Não é me dominando assim
      Que você vai me entender
      Eu posso estar sozinho
      Mas eu sei muito bem aonde estou
      Você pode até duvidar
      Acho que isso não é amor.

      Será só imaginação?
      Será que nada vai acontecer?
      Será que é tudo isso em vão?
      Será que vamos conseguir vencer?

      Nos perderemos entre monstros
      Da nossa própria criação
      Serão noites inteiras
      Talvez por medo da escuridão
      Ficaremos acordados
      Imaginando alguma solução
      Pra que esse nosso egoísmo
      Não destrua nosso coração.

      Brigar pra quê
      Se é sem querer
      Quem é que vai
      Nos proteger?
      Será que vamos ter
      Que responder
      Pelos erros a mais
      Eu e você?

  2. Eu Sei Tocar
    • (Renato Russo)

      Sexo verbal não faz meu estilo
      Palavras são erros e os erros são seus
      Não quero lembrar que eu erro também

      Um dia pretendo tentar descobrir
      Porque é mais forte quem sabe mentir
      Não quero lembrar que eu minto também

      Eu sei

      Feche a porta do seu quarto
      Porque se toca o telefone pode ser alguém
      Com quem você quer falar
      Por horas e horas e horas

      A noite acabou, talvez tenhamos que fugir sem você
      Mas não, não vá agora, quero honras e promessas
      Lembranças e estórias

      Somos pássaro novo longe do ninho

      Eu sei

  3. La Nuova Gioventu Tocar
    • (Dado Villa-Lobos/Renato Russo/ Marcelo Bonfá)

      Tudo que sei
      É que você quis partir
      Eu quis partir você
      Tirar você de mim.

      Demorei para esquecer
      Demorei para encontrar
      Um lugar onde você não me machucasse mais
      E aguardei um pouco
      Por que o tempo é mercúrio cromo
      E tempo é tudo que somos

      Talvez tivéssemos, teríamos tido, tivéramos filhos
      Estava lhe ensinando a ler
      On the road
      E coisas desiguais
      Com você por perto
      Eu gostava mais de mim.

      Veja bem, eu já não sei se estou bem só por dizer
      Só por dizer é que finjo que sei
      Não me olhe assim
      Eu sou parte de você
      Você não é parte de mim.

      Do meu passado você faz pouco caso
      Mas, só para você saber,
      Me diverti um bocado

      E com você por perto

      Eu gostava mais de mim.
  4. Ainda É Cedo - Gimme Shelter Tocar
    • (Ico-Ouro Preto/ Dado Villa-Lobos/ Renato Russo/ Marcelo Bonfá)

      Uma menina me ensinou
      Quase tudo que eu sei
      Era quase escravidão
      Mas ela me tratava como um rei
      Ela fazia muitos planos
      Eu só queria estar ali
      Sempre ao lado dela
      Eu não tinha aonde ir
      Mas, egoísta que eu sou,
      Me esqueci de ajudar
      A ela como ela me ajudou
      E não quis me separar
      Ela também estava perdida
      E por isso se agarrava a mim também
      E eu me agarrava a ela
      Porque eu não tinha mais ninguém.

      E eu dizia: - Ainda é cedo
      cedo
      cedo
      cedo
      cedo
      cedo.

      Sei que ela terminou
      O que eu não comecei
      E o que ela descobriu
      Eu aprendi também, eu sei.
      Ela falou: - Você tem medo.
      Aí eu disse: - Quem tem medo é você.
      Falamos o que não devia
      Nunca ser dito por ninguém
      Ela me disse: - Eu não sei mais o que eu sinto por você.
      Vamos dar um tempo, um dia a gente se vê.

      E eu dizia: - Ainda é cedo
      cedo
      cedo
      cedo
      cedo
      cedo.

  5. Daniel Na Cova Dos Leões Tocar
    • (Renato Russo / Renato Rocha)

      Aquele gosto amargo do teu corpo
      Ficou na minha boca por mais tempo:
      De amargo então salgado ficou doce,
      Assim que o teu cheiro forte e lento
      Fez casa nos meus braços e ainda leve
      E forte e cego e tenso fez saber
      Que ainda era muito e muito pouco.

      Faço nosso o meu segredo mais sincero
      E desafio o instinto dissonante.
      A insegurança não me ataca quando erro
      E o teu momento passa a ser o meu instante.
      E o teu medo de ter medo de ter medo
      Não faz da minha força confusão:
      Teu corpo é o meu espelho e em ti navego
      E sei que a tua correnteza não tem direção.

      Mas, tão certo quanto o erro de ser barco
      A motor e insistir em usar os remos,
      É o mal que a água faz, quando se afoga
      E o salva-vidas não está lá porque não vemos

  6. Vinte E Nove Tocar
    • (Renato Russo)

      Perdi vinte em vinte e nove amizades
      Por conta de uma pedra em minhas mãos
      Me embriaguei morrendo vinte e nove vezes
      Estou aprendendo a viver sem você
      (Já que você não me quer mais)

      Passei vinte e nove meses num navio
      E vinte e nove dias na prisão
      E aos vinte e nove, com o retorno de Saturno
      Decidi começar a viver.

      Quando você deixou de me amar
      Aprendi a perdoar
      E a pedir perdão.

      (E vinte e nove anjos me saudaram
      E tive vinte e nove amigos outra vez)

  7. Um Dia Perfeito Tocar
    • (Dado Villa-Lobos/Renato Russo)

      Quase morri
      Há menos de trinta e duas horas atrás
      Hoje a gente fica na varanda
      Um dia perfeito com as crianças.

      São as pequenas coisas que valem mais
      É tão bom estarmos juntos
      E tão simples: Um dia perfeito

      Corre corre corre
      Que vai chover
      Olha a chuva!

      Não vou me deixar embrutecer
      Eu acredito nos meus ideais
      Podem até maltratar meu coração
      Que meu espírito
      Ninguém vai conseguir quebrar.

  8. Os Anjos Tocar
    • (Dado Villa-Lobos/Renato Russo)

      Hoje não dá
      Hoje não dá
      Não sei mais o que dizer
      E nem o que pensar.

      Hoje não dá
      Hoje não dá
      A maldade humana agora não tem nome
      Hoje não dá.

      (Pegue duas medidas de estupidez
      Junte trinta e quatro partes de mentira
      Coloque tudo numa forma
      Untada previamente
      Com promessas não cumpridas
      Adicione a seguir o ódio e a inveja
      Às dez colheres cheias de burrice
      Mexa tudo e misture bem
      E não se esqueça: Antes de levar ao forno
      Temperar com essência de espirito de porco,
      Duas xícaras de indiferença
      e um tablete e meio de preguiça)

      Hoje não dá
      Hoje não dá
      Está um dia tão bonito lá fora
      E eu quero brincar
      Mas hoje não dá
      Hoje não dá
      Vou consertar a minha asa quebrada
      E descansar.

      Gostaria de não saber destes crimes atrozes
      É todo dia agora e o que vamos fazer?
      Quero voar pra bem longe mas hoje não dá
      Não sei o que pensar e nem o que dizer.

      Só nos sobrou do amor
      A falta que ficou

  9. 1965 (Duas Tribos) Tocar
    • (Dado Villa-Lobos / Renato Russo / Marcelo Bonfá)

      Vou passar
      Quero ver
      Volta aqui
      Vem você
      Como foi
      Nem sentiu
      Se era falso
      Ou fevereiro
      Temos paz
      Temos tempo
      Chegou a hora
      E agora é aqui.

      Cortaram meus braços
      Cortaram minhas mãos
      Cortaram minhas pernas
      Num dia de verão
      Num dia de verão
      Num dia de verão

      Podia ser meu pai
      Podia ser meu irmão
      Não se esqueça
      Temos sorte
      E agora é aqui

      Quando querem transformar
      Dignidade em doença
      Quando querem transformar
      Inteligência em traição
      Quando querem transformar
      Estupidez em recompensa
      Quando querem transformar
      Esperança em maldição:
      É o bem contra o mal
      E você de que lado está?
      Estou do lado do bem
      E você de que lado está?
      Estou do lado do bem.
      Com a luz e com os anjos.

      Mataram um menino
      Tinha arma de verdade
      Tinha arma nenhuma
      Tinha arma de brinquedo
      Eu tenho autorama
      Eu tenho Hanna-Barbera
      Eu tenho pêra, uva e maçã
      Eu tenho Guanabara
      E modelos Revell
      O Brasil é o país do futuro
      O Brasil é o país do futuro
      O Brasil é o país do futuro

      Em toda e qualquer situação
      Eu quero tudo pra cima
      Pra cima

  10. Monte Castelo Tocar
    • (Renato Russo)

      Ainda que eu falasse a língua dos homens
      E falasse a língua dos anjos,
      Sem amor, eu nada seria.

      É só o amor, é só o amor
      Que conhece o que é verdade
      O amor é bom, não quer o mal
      Não sente inveja ou se envaidece.

      O amor é o fogo que arde sem se ver
      É ferida que dói e não se sente
      É um contentamento descontente
      É dor que desatina sem doer.

      Ainda que eu falasse a língua dos homens
      E falasse a língua dos anjos,
      Sem amor, eu nada seria.

      É um não querer mais que bem querer
      É solitário andar por entre a gente
      É um não contentar-se de contente
      É cuidar que se ganha em se perder.

      É um estar-se preso por vontade
      É servir a quem vence o vencedor;
      É um ter com quem nos mata lealdade
      Tão contrário a si é o mesmo amor.

      Estou acordado e todos dormem, todos dormem, todos dormem.
      Agora vejo em parte
      Mas então veremos face a face.

      É só o amor, é só o amor
      Que conhece o que é verdade.

      Ainda que eu falasse a língua dos homens
      E falasse a língua dos anjos,
      Sem amor, eu nada seria.

  11. Quando O Sol Bater Na Janela Do Teu Quarto Tocar
    • (Dado Villa-Lobos / Renato Russo / Marcelo Bonfá)

      Quando o sol bater na janela do teu quarto
      Lembra e vê que o caminho é um só.

      Por que esperar se podemos começar tudo de novo
      Agora mesmo
      A humanidade é desumana
      Mas ainda temos chance
      O sol nasce pra todos
      Só não sabe quem não quer.

      Quando o sol bater na janela do teu quarto
      Lembra e vê que o caminho é um só.

      Até bem pouco tempo atrás
      Poderíamos mudar o mundo,
      Quem roubou nossa coragem?

      Tudo é dor
      E toda dor vem do desejo,
      De não sentimos dor.

      Quando o sol bater na janela do teu quarto

      Lembra e vê que o caminho é um só.
  12. Geração Coca-Cola Tocar
    • (Renato Russo)
      Quando nascemos fomos programados
      A receber o que vocês nos empurraram
      Com os enlatados dos USA., de 9 às 6.
      Desde pequenos nós comemos lixo
      Comercial e industrial
      Mas agora chegou nossa vez -
      Vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês.

      Somos os filhos da revolução
      Somos burgueses sem religião
      Nós somos o futuro da nação
      Geração Coca-Cola.

      Depois de vinte anos na escola
      Não é difícil aprender
      Todas as manhas do seu jogo sujo
      Não é assim que tem que ser?
      Vamos fazer nosso dever de casa
      E aí então, vocês vão ver
      Suas crianças derrubando reis
      Fazer comédia no cinema com as suas leis.

  13. O Teatro Dos Vampiros Tocar
    • (Dado Villa-Lobos / Renato Russo / Marcelo Bonfá)
      Sempre precisei de um pouco de atenção
      Acho que não sei quem sou
      Só sei do que não gosto.
      E destes dias tão estranhos
      Fica a poeira se escondendo pelos cantos

      Esse é o nosso mundo:
      O que é demais nunca é o bastante
      E a primeira vez é sempre a última chance.
      Ninguém vê onde chegamos:
      Os assassinos estão livres, nós não estamos.

      Vamos sair - mas não temos mais dinheiro
      Os meus amigos todos estão procurando emprego
      Voltamos a viver como há dez anos atrás
      E a cada hora que passa
      Envelhecemos dez semanas.

      Vamos lá, tudo bem - eu só quero me divertir.
      Esquecer, dessa noite ter um lugar legal pra ir...
      Já entregamos o alvo e a artilharia
      Comparamos nossas vidas
      E esperamos que um dia
      Nossas vidas possam se encontrar.

      Quando me vi tendo de viver comigo apenas
      E com o mundo
      Você me veio como um sonho bom
      E me assustei

      Não sou perfeito
      Eu não esqueço
      A riqueza que nós temos
      Ninguém consegue perceber
      E de pensar nisso tudo, eu, homem feito
      Tive medo e não consegui dormir

      Comparamos nossas vidas
      E mesmo assim, não tenho pena de ninguém.

  14. Meninos e Meninas Tocar
    • (Dado Villa-Lobos / Renato Russo / Marcelo Bonfá)

      Quero me encontrar, mas não sei onde estou
      Vem comigo procurar algum lugar mais calmo
      Longe dessa confusão
      E dessa gente que não se respeita
      Tenho quase certeza que eu
      Não sou daqui

      Acho que gosto de S. Paulo
      Gosto de S. João
      Gosto de São Francisco
      E São Sebastião
      E eu gosto de meninos e meninas

      Vai ver que é assim mesmo e vai ser assim pra sempre
      Vai ficando complicado e ao mesmo tempo diferente
      Estou cansado de bater e ninguém abrir
      Você me deixou sentindo tanto frio
      Não sei mais o que dizer

      Te fiz comida
      Velei teu sono
      Fui teu amigo
      Te levei comigo e me diz
      Pra mim o que é que ficou?

      Me deixa ver como viver é bom
      Não é a vida como está, e sim as coisas como são
      Você não quis tentar me ajudar
      Então, a culpa é de quem?
      A culpa é de quem?

      Eu canto em português errado
      Acho que o imperfeito não participa do passado
      Troco as pessoas
      Troco os pronomes
      Preciso de oxigênio
      Preciso ter amigos
      Preciso ter dinheiro
      Preciso de carinho
      Acho que te amava
      Agora acho que te odeio
      São tudo pequenas coisas
      E tudo deve passar

      Acho que gosto de S. Paulo
      Gosto de S. João
      Gosto de São Francisco
      E São Sebastião
      E eu gosto de meninos e meninas

  15. Faroeste Caboclo Tocar
    • (Renato Russo)

      - Não tinha medo o tal João de Santo Cristo,
      Era o que todos diziam quando ele se perdeu.
      Deixou pra trás todo o marasmo da fazenda
      Só pra sentir no seu sangue o ódio que Jesus lhe deu.
      Quando criança só pensava em ser bandido,
      Ainda mais quando com um tiro de um soldado o pai morreu
      Era o terror da cercania onde morava
      E na escola até o professor com ele aprendeu.

      Ia pra igreja só pra roubar o dinheiro
      Que as velhinhas colocavam na caixinha do altar.
      Sentia mesmo que era mesmo diferente
      Sentia que aquilo ali não era o seu lugar
      Ele queria sair para ver o mar
      E as coisas que ele via na televisão
      Juntou dinheiro para poder viajar
      E de escolha própria, escolheu a solidão

      Comia todas as menininhas da cidade
      De tanto brincar de médico, aos doze era professor.
      Aos quinze, foi mandado para o reformatório
      Onde aumentou seu ódio diante de tanto terror.

      Não entendia como a vida funcionava -
      Discriminação por causa da sua classe ou sua cor
      Ficou cansado de tentar achar resposta
      E comprou uma passagem, foi direto a Salvador.

      E lá chegando foi tomar um cafezinho
      E encontrou um boiadeiro com quem foi falar
      E o boiadeiro tinha uma passagem e ia perder a viagem
      Mas João foi lhe salvar
      Dizia ele: - Estou indo pra Brasília
      Neste país lugar melhor não há.
      Estou precisando visitar a minha filha
      Então fico aqui e você vai no meu lugar.

      E João aceitou sua proposta e num ônibus entrou no Planalto Central
      Ele ficou bestificado com a cidade
      Saindo da rodoviária, viu as luzes de Natal.
      - Meu Deus, mas que cidade linda,
      No ano-novo eu começo a trabalhar.
      Cortar madeira, aprendiz de carpinteiro
      Ganhava três mil por mês em Taguatinga

      Na sexta-feira ia pra zona da cidade
      Gastar todo o seu dinheiro de rapaz trabalhador
      E conhecia muita gente interessante
      Até um neto bastardo do seu bisavô:
      Um peruano que vivia na Bolívia
      E muitas coisas trazia de lá
      Seu nome era Pablo e ele dizia
      Que um negócio ele ia começar.

      E o Santo Cristo até a morte trabalhava
      Mas o dinheiro não dava pra ele se alimentar
      E ouvia às sete horas o noticiário
      Que sempre dizia que o seu ministro ia ajudar
      Mas ele não queria mais conversa e decidiu que,
      como Pablo, ele ia se virar
      Elaborou mais uma vez seu plano santo
      E, sem ser crucificado, a plantação foi começar.

      Logo logo os malucos da cidade souberam da novidade:
      - Tem bagulho bom ai!
      E João de Santo Cristo ficou rico
      E acabou com todos os traficantes dali.
      Fez amigos, freqüentava a Asa Norte
      E ia pra festa de rock, pra se libertar
      Mas de repente
      Sob uma má influência dos boyzinhos da cidade
      Começou a roubar.

      Já no primeiro roubo ele dançou
      E pro inferno ele foi pela primeira vez
      Violência e estupro do seu corpo
      - Vocês vão ver, eu vou pegar vocês.

      Agora o Santo Cristo era bandido
      Destemido e temido no Distrito Federal
      Não tinha nenhum medo de polícia
      Capitão ou traficante, playboy ou general.
      Foi quando conheceu uma menina
      E de todos os seus pecados ele se arrependeu.
      Maria Lúcia era uma menina linda
      E o coração dele
      Pra ela o Santo Cristo prometeu
      Ele dizia que queria se casar
      E carpinteiro ele voltou a ser
      - Maria Lúcia, pra sempre vou te amar
      E um filho com você eu quero ter.

      O tempo passa e um dia vem à porta um senhor de alta classe com dinheiro na mão
      E ele faz uma proposta indecorosa e diz que espera uma resposta.
      Uma resposta do João:
      - Não boto bomba em banca de jornal nem em colégio de criança
      Isso eu não faço não
      E não protejo general de dez estrelas, que fica atrás da mesa
      Com o cu na mão.
      E é melhor senhor sair da minha casa
      Nunca brinque com um Peixes com ascendente Escorpião.
      Mas antes de sair, com ódio no olhar, o velho disse:
      - Você perdeu sua vida, meu irmão.

      Você perdeu a sua vida meu irmão. Você perdeu a sua vida meu irmão
      Essas palavras vão entrar no coração
      E Eu vou sofrer as conseqüências como um cão.
      Não é que o Santo Cristo estava certo
      Seu futuro era incerto e ele não foi trabalhar
      Se embebedou e no meio da bebedeira descobriu que tinha outro
      Trabalhando em seu lugar
      Falou com Pablo que queria um parceiro
      E também tinha dinheiro e queria se armar
      Pablo trazia o contrabando da Bolívia e Santo Cristo revendia em Planaltina

      Mas acontece que um tal de Jeremias, traficante de renome,
      Apareceu por lá
      Ficou sabendo dos planos de Santo Cristo
      E decidiu que, com João ele ia acabar.
      Mas Pablo trouxe uma Winchester-22
      E Santo Cristo já sabia atirar
      E decidiu usar a arma só depois
      Que Jeremias começasse a brigar

      (O Jeremias, maconheiro sem-vergonha, organizou a Rockonha
      E fez todo mundo dançar)

      Desvirginava mocinhas inocentes
      E dizia que era crente mas não sabia rezar

      E Santo Cristo há muito não ia pra casa
      E a saudade começou a apertar
      - Eu vou embora, eu vou ver Maria Lúcia
      Já tá em tempo de a gente se casar.

      Chegando em casa então ele chorou
      E pro inferno ele foi pela segunda vez
      Com Maria Lúcia Jeremias se casou
      E um filho nela ele fez.

      Santo Cristo era só ódio por dentro e então o Jeremias pra um duelo ele chamou
      Amanhã às duas horas na Ceilândia, em frente ao lote 14, é pra lá que eu vou
      E você pode escolher as suas armas que eu acabo mesmo com você, seu porco traidor
      E mato também Maria Lúcia, aquela menina falsa pra quem jurei o meu amor

      Santo Cristo não sabia o que fazer
      Quando viu o repórter da televisão
      Que deu notícia do duelo na TV
      Dizendo a hora e o local e a razão

      No sábado então, às duas horas, todo o povo
      Sem demora foi lá só para assistir
      Um homem que atirava pelas costas e acertou o Santo Cristo
      E começou a sorrir.
      Sentindo o sangue na garganta,
      João olhou pras bandeirinhas e pro povo a aplaudir
      E olhou pro sorveteiro e pras câmeras e
      A gente da TV que filmava tudo ali.

      E se lembrou de quando era uma criança e de tudo o que vivera até ali
      E decidiu entrar de vez naquela dança
      - Se a via-crucis virou circo, estou aqui.

      E nisso o sol cegou seus olhos e então Maria Lúcia ele reconheceu
      Ela trazia a Winchester-22
      A arma que seu primo Pablo lhe deu

      - Jeremias, eu sou homem. coisa que você não é.
      E não atiro pelas costas não.
      Olha pra cá filha-da-puta, sem-vergonha
      Dá uma olhada no meu sangue
      E vem sentir o teu perdão.

      E Santo Cristo com a Winchester-22
      Deu cinco tiros no bandido traidor
      Maria Lúcia se arrependeu depois
      E morreu junto com João, seu protetor

      E o povo declarava que João de Santo Cristo era santo porque sabia morrer
      E a alta burguesia da cidade não acreditou na estória que eles viram na TV
      E João não conseguiu o que queria quando veio pra Brasília, com o diabo ter
      Ele queria era falar pro presidente
      Pra ajudar toda essa gente
      Que só faz sofrer.

  16. Pais e Filhos Tocar
    • (Dado Villa-Lobos / Renato Russo / Marcelo Bonfá)

      Estátuas e cofres
      E paredes pintadas
      Ninguém sabe o que aconteceu
      Ela se jogou da janela do quinto andar
      Nada é fácil de entender.

      Dorme agora: É só o vento lá fora.

      Quero colo
      Vou fugir de casa
      Posso dormir aqui com vocês?
      Estou com medo
      Tive um pesadelo
      Só vou voltar depois das três.

      Meu filho vai ter nome de santo
      Quero o nome mais bonito.

      É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã
      Por que se você parar pra pensar, na verdade não há.

      Me diz, por que é que o céu é azul
      Me explica a grande fúria do mundo
      São meus filhos que tomam conta de mim
      Eu moro com a minha mãe mas meu pai vem me visitar
      Eu moro na rua, não tenho ninguém
      Eu moro em qualquer lugar
      Já morei em tanta casa que nem me lembro mais
      Eu moro com os meus pais

      É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã
      Por que se você parar pra pensar, na verdade não há.

      Sou uma gota d'água
      Sou um grão de areia
      Você me diz que seus pais não entendem
      Mas você não entende seus pais.

      Você culpa seus pais por tudo
      E Isso é absurdo
      São crianças como você.

      O que você vai ser quando você crescer?

  17. Tempo Perdido Tocar
    • (Renato Russo)

      Todos os dias quando acordo,
      Não tenho mais o tempo que passou
      Mas tenho muito tempo:
      Temos todo o tempo do mundo.

      Todos os dias antes de dormir,
      Lembro e esqueço como foi o dia:
      "Sempre em frente,
      Não temos tempo a perder".

      Nosso suor sagrado
      É bem mais belo que esse sangue amargo
      E tão sério
      E Selvagem.

      Veja o sol dessa manhã tão cinza:
      A tempestade que chega é da cor dos teus
      olhos castanhos
      Então me abraça forte
      e diz mais uma vez
      Que já estamos distantes de tudo:
      Temos nosso próprio tempo.

      Não tenho medo do escuro, mas deixe as
      luzes acesas agora.
      O que foi escondido é o que se escondeu
      E o que foi prometido,
      ninguém prometeu
      Nem foi tempo perdido;
      Somos tão jovens.

  18. Giz Tocar
    • (Dado Villa-Lobos/Renato Russo/ Marcelo Bonfá)

      E mesmo sem te ver
      Acho até que estou indo bem
      Só apareço, por assim dizer,
      Quando convém
      Aparecer ou quando quero

      Desenho toda a calçada
      Acaba o giz, tem tijolo de construção
      Eu rabisco o sol que a chuva apagou

      Quero que saibas que me lembro
      Queria até que pudesses me ver
      És parte ainda do que me faz forte
      E, pra ser honesto,
      Só um pouquinho infeliz.

      Mas tudo bem
      Tudo bem
      Tudo bem

      Lá vem lá vem lá vem
      De novo:
      Acho que estou gostando de alguém

      E é de ti que não me esquecerei.

  19. O Descobrimento Do Brasil Tocar
    • (Marcelo Bonfá / Renato Russo)

      Ela me disse que trabalha no correio
      E que namora um menino eletricista
      - Estou pensando em casamento,
      Mas não quero me casar.

      Quem modelou teu rosto ?
      Quem viu a tua alma entrando ?
      Quem viu a tua alma entrar ?
      Quem são teus inimigos ?
      Quem é de tua cria ?
      A professora Adélia,
      A tia Edilamar
      E a tia Esperança.

      Será que você vai saber
      O quanto penso em você com o meu coração ?

      Quem está agora ao teu lado ?
      Quem para sempre está ?
      Quem para sempre estará ?

      Ela me disse que trabalha no correio
      E que namora um menino eletricista
      As família se conhecem bem
      E são amigas nesta vida

      - A gente quer um lugar pra gente
      A gente quer é de papel passado
      Com festa, bolo e brigadeiro
      A gente quer um canto sossegado
      A gente quer um canto de sossego

      - Estou pensando em casamento
      Ma'inda não posso me casar
      Eu sou rapaz direito
      E fui escolhido pela menina mais bonita.

  20. Eduardo e Mônica Tocar
    • (Renato Russo)

      Quem um dia irá dizer
      Que existe razão
      Nas coisas feitas pelo coração?
      E quem irá dizer
      Que não existe razão?

      Eduardo abriu os olhos, mas não quis se levantar:
      Ficou deitado e viu que horas eram
      Enquanto Monica tomava um conhaque,
      No outro canto da cidade,
      Como eles disseram.

      Eduardo e Monica um dia se encontraram sem querer
      E conversaram muito mesmo pra tentar se conhecer.
      Foi um carinha do cursinho do Eduardo que disse:
      - Tem uma festa legal e a gente quer se divertir.
      Festa estranha, com gente esquisita:
      - Eu não estou legal. Não aguento mais birita.
      E a Monica riu e quis saber um pouco mais
      Sobre o boyzinho que tentava impressionar
      E o Eduardo, meio tonto, só pensava em ir pra casa:
      - É quase duas, eu vou me ferrar.

      Eduardo e Monica trocaram telefone
      Depois telefonaram e decidiram se encontrar.
      O Eduardo sugeriu uma lanchonete
      Mas a Monica queria ver o filme do Godard.
      Se encontraram então no parque da cidade
      A Monica de moto e o Eduardo de camelo.
      O Eduardo achou estranho e melhor não comentar
      Mas a menina tinha tinta no cabelo.
      Eduardo e Monica era nada parecidos -
      Ela era de Leão e ele tinha dezesseis.
      Ela fazia Medicina e falava alemão
      E ele ainda nas aulinhas de inglês.
      Ela gostava do Bandeira e do Bauhaus,
      De Van Gogh e dos Mutantes,
      De Caetano e de Rimbaud
      E o Eduardo gostava de novela
      E jogava futebol-de-botão com seu avô.

      Ela falava coisas sobre o Planalto Central
      Também magia e meditação.
      E o Eduardo ainda estava
      No esquema "escola, cinema, clube, televisão".

      E, mesmo com tudo diferente,
      Veio mesmo, de repente
      Uma vontade de se ver
      E os dois se encontravam todo dia
      E a vontade crescia,
      Como tinha de ser...

      Eduardo e Monica fizeram natação, fotografia
      Teatro e artesanato, e foram viajar
      A Monica explicava pro Eduardo
      Coisas sobre o céu, a terra, a água e o ar...
      Ele aprendeu a beber, deixou o cabelo crescer
      E decidiu trabalhar;
      E ela se formou no mesmo mês
      Em que ele passou no vestibular
      E os dois comemoraram juntos
      E também brigaram juntos, muitas vezes depois
      E todo mundo diz que ele completa ela e vice-versa,
      Que nem feijão com arroz
      Construíram uma casa uns dois anos atrás,
      Mais ou menos quando os gêmeos vieram -
      Batalharam grana e seguraram legal
      A barra mais pesada que tiveram

      Eduardo e Monica voltaram pra Brasília
      E a nossa amizade dá saudade no verão.
      Só que nessas férias não vão viajar
      Porque o filhinho do Eduardo
      Tá de recuperação.

      E quem um dia irá dizer
      Que existe razão
      Nas coisas feitas pelo coração?
      E quem irá dizer
      Que não existe razão?

  21. Vento No Litoral Tocar
    • (Dado Villa-Lobos / Renato Russo / Marcelo Bonfá)

      De tarde quero descansar, chegar até a praia
      Ver se o vento ainda esta forte
      E vai ser bom subir nas pedras.
      Sei que faço isso pra esquecer
      Eu deixo a onda me acertar
      E o vento vai levando tudo embora.

      Agora está tão longe
      Vê, a linha do horizonte me distrai:
      Dos nossos planos é que tenho mais saudade,
      Quando olhávamos juntos na mesma direção.

      Aonde está você agora
      Alem de aqui dentro de mim?

      Agimos certo sem querer
      Foi só o tempo que errou
      Vai ser difícil sem você
      Porque você esta comigo o tempo todo.

      Quando vejo o mar
      Existe algo que diz:
      - A vida continua e se entregar é uma bobagem.

      Já que você não está aqui,
      O que posso fazer é cuidar de mim.
      Quero ser feliz ao menos.
      Lembra que o plano era ficarmos bem?

      - Ei, olha só o que eu achei: cavalos-marinhos.
      Sei que faço isso pra esquecer
      Eu deixo a onda me acertar
      E o vento vai levando tudo embora.

  22. Há Tempos Tocar
    • (Dado Villa-Lobos / Renato Russo / Marcelo Bonfá)

      Parece cocaína, mas é só tristeza, talvez tua cidade
      Muitos temores nascem do cansaço e da solidão
      E descompasso e o desperdício herdeiros são
      Agora da virtude que perdemos.

      Há tempos tive um sonho
      Não me lembro não me lembro
      Tua tristeza é tão exata
      E hoje o dia é tão bonito
      Já estamos acostumados
      A não termos mais nem isso.

      Os sonhos vêm
      E os sonhos vão
      O resto é imperfeito.

      Dissestes que se tua voz tivesse força igual
      À imensa dor que sentes
      Teu grito acordaria
      Não só a tua casa
      Mas a vizinhança inteira.
      E há tempos nem os santos têm ao certo
      A medida da maldade
      Há tempos são os jovens que adoecem
      Há tempos o encanto está ausente
      E há ferrugem nos sorrisos
      Só o acaso estende os braços
      A quem procura abrigo e proteção.

      Meu amor, disciplina é liberdade
      Compaixão é fortaleza
      Ter bondade é ter coragem
      E Ela disse:
      - Lá em casa tem um poço mas a água é muito limpa.

  23. Índios Tocar
    • (Renato Russo)

      Quem me dera, ao menos uma vez,
      Ter de volta todo o ouro que entreguei
      A quem conseguiu me convencer
      Que era prova de amizade
      Se alguém levasse embora até o que eu não tinha.

      Quem me dera, ao menos uma vez
      Esquecer que acreditei que era por brincadeira
      Que se cortava sempre um pano-de-chão
      De linho nobre e pura seda.

      Quem me dera, ao menos uma vez,
      Explicar o que ninguém consegue entender:
      Que o que aconteceu ainda está por vir
      E o futuro não é mais como era antigamente.

      Quem me dera, ao menos uma vez,
      Provar que quem tem mais do que precisa ter
      Quase sempre se convence que não tem o bastante
      Fala demais por não ter nada a dizer.

      Quem me dera, ao menos uma vez,
      Que o mais simples fosse visto como o mais importante,
      Mas nos deram espelhos
      E vimos um mundo doente.

      Quem me dera, ao menos uma vez,
      Entender como um só Deus ao mesmo tempo é três
      E esse mesmo Deus foi morto por vocês -
      É só maldade então, deixar um Deus tão triste.

      Eu quis o perigo e até sangrei sozinho.
      Entenda - assim pude trazer
      Você de volta pra mim
      Quando descobri que é sempre só você
      Que me entende do iní­cio ao fim
      E é só você que tem a cura do meu vício
      De insistir nessa saudade que eu sinto
      De tudo que eu ainda não vi.

      Quem me dera, ao menos uma vez,
      Acreditar por um instante em tudo que existe
      E acreditar que o mundo é perfeito
      E Que todas as pessoas são felizes...

      Quem me dera, ao menos uma vez,
      Fazer com que o mundo saiba que seu nome
      Está em tudo e mesmo assim
      Ninguém lhe diz ao menos obrigado.

      Quem me dera, ao menos uma vez,
      Como a mais bela tribo, dos mais belos índios,
      Não ser atacado, por ser inocente.

      Eu quis o perigo e até sangrei sozinho.
      Entenda - assim pude trazer
      Você de volta pra mim
      Quando descobri que é sempre só você
      Que me entende do iní­cio ao fim
      E é só você que tem a cura do meu vício
      De insistir nessa saudade que eu sinto
      De tudo que eu ainda não vi.

      Nos deram espelhos e vimos um mundo doente -
      Tentei chorar e não consegui.

  24. Perfeição / O Bêbado E O Equilibrista / Lithium Tocar
    • (Dado Villa-Lobos/ Renato Russo/ Marcelo Bonfá)

      I.
      Vamos celebrar a estupidez humana
      A estupidez de todas as nações
      O meu país e sua corja de assassinos
      Covardes, estupradores e ladrões...
      Vamos celebrara a estupidez do povo
      Nossa polícia e televisão
      Vamos celebrar nosso governo
      E nosso Estado, que não é nação
      Celebrar a juventude sem escolas
      As crianças mortas
      Celebrar nossa desunião
      Vamos celebrar Eros e Thanatos
      Persephone e Hades
      Vamos celebrar nossa tristeza
      Vamos celebrar nossa vaidade.

      2.
      Vamos comemorar como idiotas
      A cada fevereiro e feriado
      Todos os mortos nas estradas
      Os mortos por falta de hospitais
      Vamos celebrar nossa justiça
      A ganância e a difamação
      Vamos celebrar os preconceitos
      O voto dos analfabetos
      Comemorar a água podre
      E todos os impostos
      Queimadas, mentiras e sequestros...
      Nosso castelo de cartas marcadas
      O trabalho escravo
      Nosso pequeno universo
      Toda a hipocrisia e toda a afetação
      Todo roubo e toda indiferença
      Vamos celebrar epidemias:
      É a festa da torcida campeã.

      3.
      Vamos celebrar a fome
      Não ter a quem ouvir
      Não se ter a quem amar
      Vamos alimentar o que é maldade
      Vamos machucar o coração
      Vamos celebrar nossa bandeira
      Nosso passado de absurdos gloriosos
      Tudo que é gratuito e feio
      Tudo o que é normal
      Vamos cantar juntos o hino nacional
      (A lágrima é verdadeira)
      Vamos celebrar nossa saudade
      E comemorar a nossa solidão...

      4.
      Vamos festejar a inveja
      A intolerância e a incompreensão
      Vamos festejar a violência
      E esquecer a nossa gente
      Que trabalhou honestamente a vida inteira
      E agora não tem mais direito a nada...
      Vamos celebrar a aberração
      De toda a nossa falta de bom senso
      Nosso descaso por educação
      Vamos celebrar o horror
      De tudo isto - com festa, velório e caixão
      Está tudo morto e enterrado agora
      Já que também podemos celebrar
      A estupidez de quem cantou essa canção.

      5.
      Venha, meu coração está com pressa
      Quando a esperança está dispersa
      Só a verdade me liberta
      Chega de maldade e ilusão

      Venha, o amor tem sempre a porta aberta
      E vem chegando a primavera -
      Nosso futuro recomeça:
      Venha que o que vem é perfeição.

  25. Andrea Doria Tocar
    • (Dado Villa-Lobos / Renato Russo / Marcelo Bonfá)

      Às vezes parecia que, de tanto acreditar
      Em tudo que achávamos tão certo,
      Teríamos o mundo inteiro e até um pouco
      mais:
      Faríamos floresta do deserto
      E diamantes de pedaços de vidro.

      Mas percebo agora
      Que o teu sorriso
      Vem diferente,
      Quase parecendo te ferir.

      Não queria te ver assim -
      Quero a tua força como era antes.
      O que tens é só teu
      E de nada vale fugir
      E não sentir mais nada.
      Às vezes parecia que era só improvisar
      E o mundo então seria um livro aberto,
      Até chegar o dia em que tentamos ter demais,
      Vendendo fácil o que não tinha preço.

      Eu sei - é tudo sem sentido
      Quero ter alguém com quem conversar,
      Alguém que depois não use o que eu disse
      Contra mim.

      Nada mais vai me ferir.
      É que eu já me acostumei
      Com a estrada errada que eu segui
      E com a minha própria lei.
      Tenho o que ficou
      E tenho sorte até demais,

      Como sei que tens também.
  26. Vamos Fazer Um Filme Tocar
    • (Renato Russo)

      Achei um 3x4 teu e não quis acreditar
      Que tinha sido há tanto tempo atrás
      Um bom exemplo de bondade e respeito
      Do que o verdadeiro amor é capaz.

      A minha escola não tem personagem
      A minha escola tem gente de verdade
      Alguém falou do fim-do-mundo,
      O fim-do-mundo já passou
      Vamos começar de novo:
      Um por todos, todos por um

      - O sistema é mau, mas minha turma é legal
      Viver é foda, morrer é difícil
      Te ver é uma necessidade
      Vamos fazer um filme

      E hoje em dia, como é que se diz: "- Eu te amo" ?

      Sem essa de que: "- Estou sozinho."
      Somos muito mais que isso
      Somos pinguim, somos golfinho
      Homem, sereia e beija-flor
      Leão, leoa e leão-marinho
      Eu preciso e quero ter carinho, liberdade e respeito
      Chega de opressão:
      Quero viver a minha vida em paz.

      Quero um milhão de amigos
      Quero irmãos e irmãs
      Deve de ser cisma minha
      Mas a única maneira ainda
      De imaginar a minha vida
      É vê-la como um musical dos anos trinta
      E no meio de uma depressão
      Te ver e ter beleza e fantasia.

      E hoje em dia, como é que se diz: "- Eu te amo" ?
      Vamos fazer um filme

      Eu te amo
      Eu te amo
      Eu te amo

  27. Que País É Este / Cajuína / Pintinho Amarelinho Tocar
    • (Renato Russo)

      Nas favelas, no Senado
      Sujeira pra todo lado
      Ninguém respeita a Constituição
      Mas todos acreditam no futuro da nação

      Que país é este

      No Amazonas, no Araguaia, na Baixada Fluminense
      Mato Grosso, nas Geraes e no Nordeste tudo em paz
      Na morte eu descanso mas o sangue anda solto
      Manchando os papéis, documentos fiéis
      Ao descanso do patrão

      Que país é este

      Terceiro mundo, se for
      Piada no exterior
      Mas o Brasil vai ficar rico
      Vamos faturar um milhão
      Quando vendermos todas as almas
      Dos nossos índios num leilão.

      Que país é este