Capa do CD

Mais do Mesmo seria, em princípio, o titulo do disco que acabou sendo lançado dez anos atrás o titulo de Que Pais é Este 1978/1987. Se aquele era uma espécie de autobiografia precoce, no bom sentido, poético, este Mais do Mesmo que você tem nas mãos é a autobiografia sem adjetivo, no bom sentido, histórico. Autobiografia até porque as 16 faixas do CD foram selecionadas por Dado Villa-Lobos (guitarra) e Marcelo Bonfá (bateria), os dois legionários urbanos sobreviventes a Renato Russo (voz e baixo), morto em 11 de outubro de 1996, Parece um disco perfeitamente coerente e não uma mera coletânea: a Legião Urbana sempre fez todo o sentido do mundo.

São três faixas do primeiro CD, o politizado Legião Urbana, de 1985: “Será”, “Ainda é cedo”, “Geração Coca-Cola”. São três faixas do segundo, o amoroso Dois, de 1986: “Eduardo e Monica”, “Tempo perdido” e “Índios”. São duas faixas do irado Que Pais É Este 1978/1987: a própria e “Faroeste Caboclo (até aqui o baixista era Renato Rocha). São três faixas do religioso As Quatro Estações, de 1989: “Há tempos”, “Pais e filhos” e “Meninos e Meninas”. E uma faixa do sombrio V, de 1991: “Vento no Litoral”. Duas do reflexivo O Descobrimento do Brasil, de 1993: “Perfeição” e “Giz”. Uma do deprimido A Tempestade, de 1996: “Dezesseis”. E uma do redentor Uma Outra Estação: “Antes das seis”.

Dezesseis faixas de discos politizados, amorosos, irados, religiosos, sombrios, reflexivos, deprimidos, redimidos, discos que configuram quase um evangelho, por mais que Renato Russo, a certa altura da vida renegasse qualquer messianismo.

Nenhuma das faixas exige maiores floreios de apresentação. Elas estão aí, como se aí estivessem desde sempre, são musicas incorporadas ao inconsciente coletivo, dessas que a gente cantarola sem nem saber por quê – são clássicos.

E os clássicos são clássicos porque sempre devem ser ouvidos, revistos e relidos.

Por Arthur Dapieve

  1. Será Tocar
    • Será
      (Dado Villa-Lobos / Renato Russo / Marcelo Bonfá)

      Tire suas mãos de mim
      Eu não pertenço a você
      Não é me dominando assim
      Que você vai me entender
      Eu posso estar sozinho
      Mas eu sei muito bem aonde estou
      Você pode até duvidar
      Acho que isso não é amor.

      Será só imaginação?
      Será que nada vai acontecer?
      Será que é tudo isso em vão?
      Será que vamos conseguir vencer?

      Nos perderemos entre monstros
      Da nossa própria criação
      Serão noites inteiras
      Talvez por medo da escuridão
      Ficaremos acordados
      Imaginando alguma solução
      Pra que esse nosso egoísmo
      Não destrua nosso coração.

      Brigar pra quê
      Se é sem querer
      Quem é que vai
      Nos proteger?
      Será que vamos ter
      Que responder
      Pelos erros a mais
      Eu e você?

  2. Ainda é Cedo Tocar
    • (Ico-Ouro Preto/ Dado Villa-Lobos/ Renato Russo/ Marcelo Bonfá)

      Uma menina me ensinou
      Quase tudo que eu sei
      Era quase escravidão
      Mas ela me tratava como um rei
      Ela fazia muitos planos
      Eu só queria estar ali
      Sempre ao lado dela
      Eu não tinha aonde ir
      Mas, egoísta que eu sou,
      Me esqueci de ajudar
      A ela como ela me ajudou
      E não quis me separar
      Ela também estava perdida
      E por isso se agarrava a mim também
      E eu me agarrava a ela
      Porque eu não tinha mais ninguém.

      E eu dizia: - Ainda é cedo
      cedo
      cedo
      cedo
      cedo
      cedo.

      Sei que ela terminou
      O que eu não comecei
      E o que ela descobriu
      Eu aprendi também, eu sei.
      Ela falou: - Você tem medo.
      Aí eu disse: - Quem tem medo é você.
      Falamos o que não devia
      Nunca ser dito por ninguém
      Ela me disse: - Eu não sei mais o que eu sinto por você.
      Vamos dar um tempo, um dia a gente se vê.

      E eu dizia: - Ainda é cedo
      cedo
      cedo
      cedo
      cedo
      cedo.

  3. Geração Coca-Cola Tocar
    • (Renato Russo)

      Quando nascemos fomos programados
      A receber o que vocês nos empurraram
      Com os enlatados dos USA., de 9 às 6.
      Desde pequenos nós comemos lixo
      Comercial e industrial
      Mas agora chegou nossa vez -
      Vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês.

      Somos os filhos da revolução
      Somos burgueses sem religião
      Nós somos o futuro da nação
      Geração Coca-Cola.

      Depois de vinte anos na escola
      Não é difícil aprender
      Todas as manhas do seu jogo sujo
      Não é assim que tem que ser?
      Vamos fazer nosso dever de casa
      E aí então, vocês vão ver
      Suas crianças derrubando reis
      Fazer comédia no cinema com as suas leis.

  4. Eduardo e Mônica Tocar
    • (Renato Russo)

      Quem um dia irá dizer
      Que existe razão
      Nas coisas feitas pelo coração?
      E quem irá dizer
      Que não existe razão?

      Eduardo abriu os olhos, mas não quis se levantar:
      Ficou deitado e viu que horas eram
      Enquanto Monica tomava um conhaque,
      No outro canto da cidade,
      Como eles disseram.

      Eduardo e Monica um dia se encontraram sem querer
      E conversaram muito mesmo pra tentar se conhecer.
      Foi um carinha do cursinho do Eduardo que disse:
      - Tem uma festa legal e a gente quer se divertir.
      Festa estranha, com gente esquisita:
      - Eu não estou legal. Não aguento mais birita.
      E a Monica riu e quis saber um pouco mais
      Sobre o boyzinho que tentava impressionar
      E o Eduardo, meio tonto, só pensava em ir pra casa:
      - É quase duas, eu vou me ferrar.

      Eduardo e Monica trocaram telefone
      Depois telefonaram e decidiram se encontrar.
      O Eduardo sugeriu uma lanchonete
      Mas a Monica queria ver o filme do Godard.
      Se encontraram então no parque da cidade
      A Monica de moto e o Eduardo de camelo.
      O Eduardo achou estranho e melhor não comentar
      Mas a menina tinha tinta no cabelo.
      Eduardo e Monica era nada parecidos -
      Ela era de Leão e ele tinha dezesseis.
      Ela fazia Medicina e falava alemão
      E ele ainda nas aulinhas de inglês.
      Ela gostava do Bandeira e do Bauhaus,
      De Van Gogh e dos Mutantes,
      De Caetano e de Rimbaud
      E o Eduardo gostava de novela
      E jogava futebol-de-botão com seu avô.

      Ela falava coisas sobre o Planalto Central
      Também magia e meditação.
      E o Eduardo ainda estava
      No esquema "escola, cinema, clube, televisão".

      E, mesmo com tudo diferente,
      Veio mesmo, de repente
      Uma vontade de se ver
      E os dois se encontravam todo dia
      E a vontade crescia,
      Como tinha de ser...

      Eduardo e Monica fizeram natação, fotografia
      Teatro e artesanato, e foram viajar
      A Monica explicava pro Eduardo
      Coisas sobre o céu, a terra, a água e o ar...
      Ele aprendeu a beber, deixou o cabelo crescer
      E decidiu trabalhar;
      E ela se formou no mesmo mês
      Em que ele passou no vestibular
      E os dois comemoraram juntos
      E também brigaram juntos, muitas vezes depois
      E todo mundo diz que ele completa ela e vice-versa,
      Que nem feijão com arroz
      Construíram uma casa uns dois anos atrás,
      Mais ou menos quando os gêmeos vieram -
      Batalharam grana e seguraram legal
      A barra mais pesada que tiveram

      Eduardo e Monica voltaram pra Brasília
      E a nossa amizade dá saudade no verão.
      Só que nessas férias não vão viajar
      Porque o filhinho do Eduardo
      Tá de recuperação.

      E quem um dia irá dizer
      Que existe razão
      Nas coisas feitas pelo coração?
      E quem irá dizer
      Que não existe razão?

  5. Tempo Perdido Tocar
    • (Renato Russo)

      Todos os dias quando acordo,
      Não tenho mais o tempo que passou
      Mas tenho muito tempo:
      Temos todo o tempo do mundo.

      Todos os dias antes de dormir,
      Lembro e esqueço como foi o dia:
      "Sempre em frente,
      Não temos tempo a perder".

      Nosso suor sagrado
      É bem mais belo que esse sangue amargo
      E tão sério
      E Selvagem.

      Veja o sol dessa manhã tão cinza:
      A tempestade que chega é da cor dos teus
      olhos castanhos
      Então me abraça forte
      e diz mais uma vez
      Que já estamos distantes de tudo:
      Temos nosso próprio tempo.

      Não tenho medo do escuro, mas deixe as
      luzes acesas agora.
      O que foi escondido é o que se escondeu
      E o que foi prometido,
      ninguém prometeu
      Nem foi tempo perdido;
      Somos tão jovens.

  6. Índios Tocar
    • (Renato Russo)

      Quem me dera, ao menos uma vez,
      Ter de volta todo o ouro que entreguei
      A quem conseguiu me convencer
      Que era prova de amizade
      Se alguém levasse embora até o que eu não tinha.

      Quem me dera, ao menos uma vez
      Esquecer que acreditei que era por brincadeira
      Que se cortava sempre um pano-de-chão
      De linho nobre e pura seda.

      Quem me dera, ao menos uma vez,
      Explicar o que ninguém consegue entender:
      Que o que aconteceu ainda está por vir
      E o futuro não é mais como era antigamente.

      Quem me dera, ao menos uma vez,
      Provar que quem tem mais do que precisa ter
      Quase sempre se convence que não tem o bastante
      Fala demais por não ter nada a dizer.

      Quem me dera, ao menos uma vez,
      Que o mais simples fosse visto como o mais importante,
      Mas nos deram espelhos
      E vimos um mundo doente.

      Quem me dera, ao menos uma vez,
      Entender como um só Deus ao mesmo tempo é três
      E esse mesmo Deus foi morto por vocês -
      É só maldade então, deixar um Deus tão triste.

      Eu quis o perigo e até sangrei sozinho.
      Entenda - assim pude trazer
      Você de volta pra mim
      Quando descobri que é sempre só você
      Que me entende do iní­cio ao fim
      E é só você que tem a cura do meu vício
      De insistir nessa saudade que eu sinto
      De tudo que eu ainda não vi.

      Quem me dera, ao menos uma vez,
      Acreditar por um instante em tudo que existe
      E acreditar que o mundo é perfeito
      E Que todas as pessoas são felizes...

      Quem me dera, ao menos uma vez,
      Fazer com que o mundo saiba que seu nome
      Está em tudo e mesmo assim
      Ninguém lhe diz ao menos obrigado.

      Quem me dera, ao menos uma vez,
      Como a mais bela tribo, dos mais belos índios,
      Não ser atacado, por ser inocente.

      Eu quis o perigo e até sangrei sozinho.
      Entenda - assim pude trazer
      Você de volta pra mim
      Quando descobri que é sempre só você
      Que me entende do iní­cio ao fim
      E é só você que tem a cura do meu vício
      De insistir nessa saudade que eu sinto
      De tudo que eu ainda não vi.

      Nos deram espelhos e vimos um mundo doente -
      Tentei chorar e não consegui.

  7. Que País é Este Tocar
    • (Renato Russo)

      Nas favelas, no Senado
      Sujeira pra todo lado
      Ninguém respeita a Constituição
      Mas todos acreditam no futuro da nação

      Que país é este

      No Amazonas, no Araguaia, na Baixada Fluminense
      Mato Grosso, nas Geraes e no Nordeste tudo em paz
      Na morte eu descanso mas o sangue anda solto
      Manchando os papéis, documentos fiéis
      Ao descanso do patrão

      Que país é este

      Terceiro mundo, se for
      Piada no exterior
      Mas o Brasil vai ficar rico
      Vamos faturar um milhão
      Quando vendermos todas as almas
      Dos nossos índios num leilão.

      Que país é este

  8. Faroeste Cabloco Tocar
    • (Renato Russo)

      - Não tinha medo o tal João de Santo Cristo,
      Era o que todos diziam quando ele se perdeu.
      Deixou pra trás todo o marasmo da fazenda
      Só pra sentir no seu sangue o ódio que Jesus lhe deu.
      Quando criança só pensava em ser bandido,
      Ainda mais quando com um tiro de um soldado o pai morreu
      Era o terror da cercania onde morava
      E na escola até o professor com ele aprendeu.

      Ia pra igreja só pra roubar o dinheiro
      Que as velhinhas colocavam na caixinha do altar.
      Sentia mesmo que era mesmo diferente
      Sentia que aquilo ali não era o seu lugar
      Ele queria sair para ver o mar
      E as coisas que ele via na televisão
      Juntou dinheiro para poder viajar
      E de escolha própria, escolheu a solidão

      Comia todas as menininhas da cidade
      De tanto brincar de médico, aos doze era professor.
      Aos quinze, foi mandado para o reformatório
      Onde aumentou seu ódio diante de tanto terror.

      Não entendia como a vida funcionava -
      Discriminação por causa da sua classe ou sua cor
      Ficou cansado de tentar achar resposta
      E comprou uma passagem, foi direto a Salvador.

      E lá chegando foi tomar um cafezinho
      E encontrou um boiadeiro com quem foi falar
      E o boiadeiro tinha uma passagem e ia perder a viagem
      Mas João foi lhe salvar
      Dizia ele: - Estou indo pra Brasília
      Neste país lugar melhor não há.
      Estou precisando visitar a minha filha
      Então fico aqui e você vai no meu lugar.

      E João aceitou sua proposta e num ônibus entrou no Planalto Central
      Ele ficou bestificado com a cidade
      Saindo da rodoviária, viu as luzes de Natal.
      - Meu Deus, mas que cidade linda,
      No ano-novo eu começo a trabalhar.
      Cortar madeira, aprendiz de carpinteiro
      Ganhava três mil por mês em Taguatinga

      Na sexta-feira ia pra zona da cidade
      Gastar todo o seu dinheiro de rapaz trabalhador
      E conhecia muita gente interessante
      Até um neto bastardo do seu bisavô:
      Um peruano que vivia na Bolívia
      E muitas coisas trazia de lá
      Seu nome era Pablo e ele dizia
      Que um negócio ele ia começar.

      E o Santo Cristo até a morte trabalhava
      Mas o dinheiro não dava pra ele se alimentar
      E ouvia às sete horas o noticiário
      Que sempre dizia que o seu ministro ia ajudar
      Mas ele não queria mais conversa e decidiu que,
      como Pablo, ele ia se virar
      Elaborou mais uma vez seu plano santo
      E, sem ser crucificado, a plantação foi começar.

      Logo logo os malucos da cidade souberam da novidade:
      - Tem bagulho bom ai!
      E João de Santo Cristo ficou rico
      E acabou com todos os traficantes dali.
      Fez amigos, freqüentava a Asa Norte
      E ia pra festa de rock, pra se libertar
      Mas de repente
      Sob uma má influência dos boyzinhos da cidade
      Começou a roubar.

      Já no primeiro roubo ele dançou
      E pro inferno ele foi pela primeira vez
      Violência e estupro do seu corpo
      - Vocês vão ver, eu vou pegar vocês.

      Agora o Santo Cristo era bandido
      Destemido e temido no Distrito Federal
      Não tinha nenhum medo de polícia
      Capitão ou traficante, playboy ou general.
      Foi quando conheceu uma menina
      E de todos os seus pecados ele se arrependeu.
      Maria Lúcia era uma menina linda
      E o coração dele
      Pra ela o Santo Cristo prometeu
      Ele dizia que queria se casar
      E carpinteiro ele voltou a ser
      - Maria Lúcia, pra sempre vou te amar
      E um filho com você eu quero ter.

      O tempo passa e um dia vem à porta um senhor de alta classe com dinheiro na mão
      E ele faz uma proposta indecorosa e diz que espera uma resposta.
      Uma resposta do João:
      - Não boto bomba em banca de jornal nem em colégio de criança
      Isso eu não faço não
      E não protejo general de dez estrelas, que fica atrás da mesa
      Com o cu na mão.
      E é melhor senhor sair da minha casa
      Nunca brinque com um Peixes com ascendente Escorpião.
      Mas antes de sair, com ódio no olhar, o velho disse:
      - Você perdeu sua vida, meu irmão.

      Você perdeu a sua vida meu irmão. Você perdeu a sua vida meu irmão
      Essas palavras vão entrar no coração
      E Eu vou sofrer as conseqüências como um cão.
      Não é que o Santo Cristo estava certo
      Seu futuro era incerto e ele não foi trabalhar
      Se embebedou e no meio da bebedeira descobriu que tinha outro
      Trabalhando em seu lugar
      Falou com Pablo que queria um parceiro
      E também tinha dinheiro e queria se armar
      Pablo trazia o contrabando da Bolívia e Santo Cristo revendia em Planaltina

      Mas acontece que um tal de Jeremias, traficante de renome,
      Apareceu por lá
      Ficou sabendo dos planos de Santo Cristo
      E decidiu que, com João ele ia acabar.
      Mas Pablo trouxe uma Winchester-22
      E Santo Cristo já sabia atirar
      E decidiu usar a arma só depois
      Que Jeremias começasse a brigar

      (O Jeremias, maconheiro sem-vergonha, organizou a Rockonha
      E fez todo mundo dançar)

      Desvirginava mocinhas inocentes
      E dizia que era crente mas não sabia rezar

      E Santo Cristo há muito não ia pra casa
      E a saudade começou a apertar
      - Eu vou embora, eu vou ver Maria Lúcia
      Já tá em tempo de a gente se casar.

      Chegando em casa então ele chorou
      E pro inferno ele foi pela segunda vez
      Com Maria Lúcia Jeremias se casou
      E um filho nela ele fez.

      Santo Cristo era só ódio por dentro e então o Jeremias pra um duelo ele chamou
      Amanhã às duas horas na Ceilândia, em frente ao lote 14, é pra lá que eu vou
      E você pode escolher as suas armas que eu acabo mesmo com você, seu porco traidor
      E mato também Maria Lúcia, aquela menina falsa pra quem jurei o meu amor

      Santo Cristo não sabia o que fazer
      Quando viu o repórter da televisão
      Que deu notícia do duelo na TV
      Dizendo a hora e o local e a razão

      No sábado então, às duas horas, todo o povo
      Sem demora foi lá só para assistir
      Um homem que atirava pelas costas e acertou o Santo Cristo
      E começou a sorrir.
      Sentindo o sangue na garganta,
      João olhou pras bandeirinhas e pro povo a aplaudir
      E olhou pro sorveteiro e pras câmeras e
      A gente da TV que filmava tudo ali.

      E se lembrou de quando era uma criança e de tudo o que vivera até ali
      E decidiu entrar de vez naquela dança
      - Se a via-crucis virou circo, estou aqui.

      E nisso o sol cegou seus olhos e então Maria Lúcia ele reconheceu
      Ela trazia a Winchester-22
      A arma que seu primo Pablo lhe deu

      - Jeremias, eu sou homem. coisa que você não é.
      E não atiro pelas costas não.
      Olha pra cá filha-da-puta, sem-vergonha
      Dá uma olhada no meu sangue
      E vem sentir o teu perdão.

      E Santo Cristo com a Winchester-22
      Deu cinco tiros no bandido traidor
      Maria Lúcia se arrependeu depois
      E morreu junto com João, seu protetor

      E o povo declarava que João de Santo Cristo era santo porque sabia morrer
      E a alta burguesia da cidade não acreditou na estória que eles viram na TV
      E João não conseguiu o que queria quando veio pra Brasília, com o diabo ter
      Ele queria era falar pro presidente
      Pra ajudar toda essa gente
      Que só faz sofrer.

  9. Há Tempos Tocar
    • (Dado Villa-Lobos / Renato Russo / Marcelo Bonfá)

      Parece cocaína, mas é só tristeza, talvez tua cidade
      Muitos temores nascem do cansaço e da solidão
      E descompasso e o desperdício herdeiros são
      Agora da virtude que perdemos.

      Há tempos tive um sonho
      Não me lembro não me lembro
      Tua tristeza é tão exata
      E hoje o dia é tão bonito
      Já estamos acostumados
      A não termos mais nem isso.

      Os sonhos vêm
      E os sonhos vão
      O resto é imperfeito.

      Dissestes que se tua voz tivesse força igual
      À imensa dor que sentes
      Teu grito acordaria
      Não só a tua casa
      Mas a vizinhança inteira.
      E há tempos nem os santos têm ao certo
      A medida da maldade
      Há tempos são os jovens que adoecem
      Há tempos o encanto está ausente
      E há ferrugem nos sorrisos
      Só o acaso estende os braços
      A quem procura abrigo e proteção.

      Meu amor, disciplina é liberdade
      Compaixão é fortaleza
      Ter bondade é ter coragem
      E Ela disse:
      - Lá em casa tem um poço mas a água é muito limpa.

  10. Pais e Filhos Tocar
    • (Dado Villa-Lobos / Renato Russo / Marcelo Bonfá)

      Estátuas e cofres
      E paredes pintadas
      Ninguém sabe o que aconteceu
      Ela se jogou da janela do quinto andar
      Nada é fácil de entender.

      Dorme agora: É só o vento lá fora.

      Quero colo
      Vou fugir de casa
      Posso dormir aqui com vocês?
      Estou com medo
      Tive um pesadelo
      Só vou voltar depois das três.

      Meu filho vai ter nome de santo
      Quero o nome mais bonito.

      É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã
      Por que se você parar pra pensar, na verdade não há.

      Me diz, por que é que o céu é azul
      Me explica a grande fúria do mundo
      São meus filhos que tomam conta de mim
      Eu moro com a minha mãe mas meu pai vem me visitar
      Eu moro na rua, não tenho ninguém
      Eu moro em qualquer lugar
      Já morei em tanta casa que nem me lembro mais
      Eu moro com os meus pais

      É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã
      Por que se você parar pra pensar, na verdade não há.

      Sou uma gota d'água
      Sou um grão de areia
      Você me diz que seus pais não entendem
      Mas você não entende seus pais.

      Você culpa seus pais por tudo
      E Isso é absurdo
      São crianças como você.

      O que você vai ser quando você crescer?

  11. Meninos e Meninas Tocar
    • (Dado Villa-Lobos / Renato Russo / Marcelo Bonfá)

      Quero me encontrar, mas não sei onde estou
      Vem comigo procurar algum lugar mais calmo
      Longe dessa confusão
      E dessa gente que não se respeita
      Tenho quase certeza que eu
      Não sou daqui

      Acho que gosto de S. Paulo
      Gosto de S. João
      Gosto de São Francisco
      E São Sebastião
      E eu gosto de meninos e meninas

      Vai ver que é assim mesmo e vai ser assim pra sempre
      Vai ficando complicado e ao mesmo tempo diferente
      Estou cansado de bater e ninguém abrir
      Você me deixou sentindo tanto frio
      Não sei mais o que dizer

      Te fiz comida
      Velei teu sono
      Fui teu amigo
      Te levei comigo e me diz
      Pra mim o que é que ficou?

      Me deixa ver como viver é bom
      Não é a vida como está, e sim as coisas como são
      Você não quis tentar me ajudar
      Então, a culpa é de quem?
      A culpa é de quem?

      Eu canto em português errado
      Acho que o imperfeito não participa do passado
      Troco as pessoas
      Troco os pronomes
      Preciso de oxigênio
      Preciso ter amigos
      Preciso ter dinheiro
      Preciso de carinho
      Acho que te amava
      Agora acho que te odeio
      São tudo pequenas coisas
      E tudo deve passar

      Acho que gosto de S. Paulo
      Gosto de S. João
      Gosto de São Francisco
      E São Sebastião
      E eu gosto de meninos e meninas

  12. Vento no Litoral Tocar
    • (Dado Villa-Lobos / Renato Russo / Marcelo Bonfá)

      De tarde quero descansar, chegar até a praia
      Ver se o vento ainda esta forte
      E vai ser bom subir nas pedras.
      Sei que faço isso pra esquecer
      Eu deixo a onda me acertar
      E o vento vai levando tudo embora.

      Agora está tão longe
      Vê, a linha do horizonte me distrai:
      Dos nossos planos é que tenho mais saudade,
      Quando olhávamos juntos na mesma direção.

      Aonde está você agora
      Alem de aqui dentro de mim?

      Agimos certo sem querer
      Foi só o tempo que errou
      Vai ser difícil sem você
      Porque você esta comigo o tempo todo.

      Quando vejo o mar
      Existe algo que diz:
      - A vida continua e se entregar é uma bobagem.

      Já que você não está aqui,
      O que posso fazer é cuidar de mim.
      Quero ser feliz ao menos.
      Lembra que o plano era ficarmos bem?

      - Ei, olha só o que eu achei: cavalos-marinhos.
      Sei que faço isso pra esquecer
      Eu deixo a onda me acertar
      E o vento vai levando tudo embora.

  13. Perfeição Tocar
    • (Dado Villa-Lobos/ Renato Russo/ Marcelo Bonfá)

      I.
      Vamos celebrar a estupidez humana
      A estupidez de todas as nações
      O meu país e sua corja de assassinos
      Covardes, estupradores e ladrões...
      Vamos celebrara a estupidez do povo
      Nossa polícia e televisão
      Vamos celebrar nosso governo
      E nosso Estado, que não é nação
      Celebrar a juventude sem escolas
      As crianças mortas
      Celebrar nossa desunião
      Vamos celebrar Eros e Thanatos
      Persephone e Hades
      Vamos celebrar nossa tristeza
      Vamos celebrar nossa vaidade.

      2.
      Vamos comemorar como idiotas
      A cada fevereiro e feriado
      Todos os mortos nas estradas
      Os mortos por falta de hospitais
      Vamos celebrar nossa justiça
      A ganância e a difamação
      Vamos celebrar os preconceitos
      O voto dos analfabetos
      Comemorar a água podre
      E todos os impostos
      Queimadas, mentiras e sequestros...
      Nosso castelo de cartas marcadas
      O trabalho escravo
      Nosso pequeno universo
      Toda a hipocrisia e toda a afetação
      Todo roubo e toda indiferença
      Vamos celebrar epidemias:
      É a festa da torcida campeã.

      3.
      Vamos celebrar a fome
      Não ter a quem ouvir
      Não se ter a quem amar
      Vamos alimentar o que é maldade
      Vamos machucar o coração
      Vamos celebrar nossa bandeira
      Nosso passado de absurdos gloriosos
      Tudo que é gratuito e feio
      Tudo o que é normal
      Vamos cantar juntos o hino nacional
      (A lágrima é verdadeira)
      Vamos celebrar nossa saudade
      E comemorar a nossa solidão...

      4.
      Vamos festejar a inveja
      A intolerância e a incompreensão
      Vamos festejar a violência
      E esquecer a nossa gente
      Que trabalhou honestamente a vida inteira
      E agora não tem mais direito a nada...
      Vamos celebrar a aberração
      De toda a nossa falta de bom senso
      Nosso descaso por educação
      Vamos celebrar o horror
      De tudo isto - com festa, velório e caixão
      Está tudo morto e enterrado agora
      Já que também podemos celebrar
      A estupidez de quem cantou essa canção.

      5.
      Venha, meu coração está com pressa
      Quando a esperança está dispersa
      Só a verdade me liberta
      Chega de maldade e ilusão

      Venha, o amor tem sempre a porta aberta
      E vem chegando a primavera -
      Nosso futuro recomeça:
      Venha que o que vem é perfeição.

  14. Giz Tocar
    • (Dado Villa-Lobos/Renato Russo/ Marcelo Bonfá)

      E mesmo sem te ver
      Acho até que estou indo bem
      Só apareço, por assim dizer,
      Quando convém
      Aparecer ou quando quero

      Desenho toda a calçada
      Acaba o giz, tem tijolo de construção
      Eu rabisco o sol que a chuva apagou

      Quero que saibas que me lembro
      Queria até que pudesses me ver
      És parte ainda do que me faz forte
      E, pra ser honesto,
      Só um pouquinho infeliz.

      Mas tudo bem
      Tudo bem
      Tudo bem

      Lá vem lá vem lá vem
      De novo:
      Acho que estou gostando de alguém

      E é de ti que não me esquecerei.

  15. Dezesseis Tocar
    • (Dado Villa-Lobos / Renato Russo / Marcelo Bonfá)

      João Roberto era o maioral, o nosso Johnny
      era um cara legal
      Ele tinha um Opala metálico azul
      Era o rei dos pegas na Asa Sul e em todo lugar
      Quando ele pegava no violão
      Conquistava as meninas e quem mais
      quisesse ter
      Sabia tudo da Janis, do Led Zeppelin, dos
      Beatles e dos Rolling Stones
      Mas de uns tempos prá cá meio sem
      querer alguma coisa aconteceu
      Johnny andava meio quieto demais só que
      quase ninguém percebeu
      Johnny estava com um sorriso estranho
      Quando marcou um super pega no
      fim-de-semana
      Não vai ser no CASEB, nem no Lago Norte,
      nem na UnB
      As máquinas prontas, o ronco de motor
      A cidade inteira se movimentou
      E Johnny disse: - Eu vou pra Curva do
      Diabo em Sobradinho e vocês?
      E os motores sairam ligados a mil
      Pra estrada da morte o maior pega que
      existiu
      Só deu pra ouvir foi aquela explosão
      E os pedaços do Opala azul de Johnny
      pelo chão
      No dia seguinte falou o diretor:
      - O aluno João Roberto não está
      mais entre nós
      Ele só tinha dezesseis
      Que isso sirva de aviso pra vocês
      E na saída da aula foi estranho e bonito
      Todo o mundo cantando baixinho:
      Strawberry Fields Forever
      Strawberry Fields Forever
      E até hoje quem se lembra
      diz que não foi o caminhão
      Nem a curva fatal e nem a explosão
      Johnny era fera demais pra vacilar assim
      E o que dizem é que foi tudo por causa
      de um coração partido
      Um coração
      Bye bye Johnny
      Johnny bye bye

  16. Antes Das Seis Tocar
    • (Dado Villa-Lobos / Renato Russo)

      Quem inventou o amor?
      Me explica por favor
      Quem inventou o amor?
      Me explica por favor

      Vem e me diz o que aconteceu
      Faz de conta que passou
      Quem inventou o amor?
      Me explica por favor

      Daqui vejo seu descanso
      Perto do seu travesseiro
      Depois quero ver se acerto
      Dos dois quem acorda primeiro

      Quem inventou o amor?
      Me explica por favor
      Quem inventou o amor?
      Me explica por favor

      Enquanto a vida vai e vem
      Você procura achar alguém
      Que um dia possa lhe dizer
      - Quero ficar só com você

      Quem inventou o amor?