Capa do CD

Após a interrupção da turnê de “V”, a banda entrou em recesso. Não havia material novo a ser trabalhado, quando Renato Russo teve a ideia de fazer um disco ao vivo e duplo. A intenção era que fosse um álbum diferente das tradicionais compilações do mercado fonográfico e, por isso, o grupo buscou faixas gravadas nas mais diversas situações, como programas de TV, de rádio, de épocas diferentes, de condições e equipamentos variados, de compositores diferentes… Pegaram e misturaram tudo isso com alguns registros de shows da banda.

Afora algumas faixas gravadas acústicas para o especial, o disco não tinha nenhum ar de “acampamento”. Muito pelo contrário. O nome foi tirado de um desenho que Bonfá fez que Renato viu e gostou. Disso surgiu o conceito que, depois de lançado, pareceu amarrar bem o que era o álbum.

  1. Fábrica Tocar
    • (Renato Russo)

      Nosso dia vai chegar,
      Teremos nossa vez.
      Não é pedir demais:
      Quero justiça,
      Quero trabalhar em paz.
      Não é muito o que lhe peço -
      Eu quero trabalho honesto
      Em vez de escravidão.

      Deve haver algum lugar
      Onde o mais forte
      Não consegue escravizar
      Quem não tem chance.

      De onde vem a indiferença
      Temperada a ferro e fogo?
      Quem guarda os portões da fábrica?

      O céu já foi azul, mas agora é cinza
      O que era verde aqui, já não existe mais.
      Quem me dera acreditar
      Que não acontece nada de tanto brincar
      com fogo.

      Que venha o fogo então.

      Esse ar deixou minha vista cansada,
      Nada demais.

  2. Daniel Na Cova dos Leões Tocar
    • (Renato Russo / Renato Rocha)

      Aquele gosto amargo do teu corpo
      Ficou na minha boca por mais tempo:
      De amargo então salgado ficou doce,
      Assim que o teu cheiro forte e lento
      Fez casa nos meus braços e ainda leve
      E forte e cego e tenso fez saber
      Que ainda era muito e muito pouco.

      Faço nosso o meu segredo mais sincero
      E desafio o instinto dissonante.
      A insegurança não me ataca quando erro
      E o teu momento passa a ser o meu instante.
      E o teu medo de ter medo de ter medo
      Não faz da minha força confusão:
      Teu corpo é o meu espelho e em ti navego
      E sei que a tua correnteza não tem direção.

      Mas, tão certo quanto o erro de ser barco
      A motor e insistir em usar os remos,
      É o mal que a água faz, quando se afoga
      E o salva-vidas não está lá porque não vemos

  3. A Canção do Senhor da Guerra Tocar
    • (Renato Russo)

      Existe alguém
      Esperando por você
      Que vai comprar
      A sua juventude
      E convencê-lo a vencer.

      Mais uma guerra sem razão
      Já são tantas as crianças
      Com armas na mão
      Mas explicam novamente
      Que a guerra gera empregos
      Aumenta a produção.

      Uma guerra sempre avança a tecnologia
      Mesmo sendo guerra santa
      Quente, morna ou fria
      Pra que exportar comida?
      Se as armas dão mais lucros na exportação.

      Existe alguém que está contando com você
      Pra lutar em seu lugar
      Já que nessa guerra não é ele quem vai morrer.

      E quando longe de casa
      Ferido e com frio
      O inimigo você espera
      Ele estará com outros velhos Inventando
      Novos jogos de guerra.

      Que belíssimas cenas de destruição
      Não teremos mais problemas com a superpopulação.

      Veja que uniforme lindo
      Fizemos pra você
      Lembre-se sempre
      Que Deus está do lado de quem vai vencer.

  4. O Teatro dos Vampiros Tocar
    • (Dado Villa-Lobos / Renato Russo / Marcelo Bonfá)

      Sempre precisei de um pouco de atenção
      Acho que não sei quem sou
      Só sei do que não gosto.
      E destes dias tão estranhos
      Fica a poeira se escondendo pelos cantos

      Esse é o nosso mundo:
      O que é demais nunca é o bastante
      E a primeira vez é sempre a última chance.
      Ninguém vê onde chegamos:
      Os assassinos estão livres, nós não estamos.

      Vamos sair - mas não temos mais dinheiro
      Os meus amigos todos estão procurando emprego
      Voltamos a viver como há dez anos atrás
      E a cada hora que passa
      Envelhecemos dez semanas.

      Vamos lá, tudo bem - eu só quero me divertir.
      Esquecer, dessa noite ter um lugar legal pra ir...
      Já entregamos o alvo e a artilharia
      Comparamos nossas vidas
      E esperamos que um dia
      Nossas vidas possam se encontrar.

      Quando me vi tendo de viver comigo apenas
      E com o mundo
      Você me veio como um sonho bom
      E me assustei

      Não sou perfeito
      Eu não esqueço
      A riqueza que nós temos
      Ninguém consegue perceber
      E de pensar nisso tudo, eu, homem feito
      Tive medo e não consegui dormir

      Comparamos nossas vidas
      E mesmo assim, não tenho pena de ninguém.

  5. Ainda é Cedo Tocar
    • (Ico-Ouro Preto/ Dado Villa-Lobos/ Renato Russo/ Marcelo Bonfá)

      Uma menina me ensinou
      Quase tudo que eu sei
      Era quase escravidão
      Mas ela me tratava como um rei
      Ela fazia muitos planos
      Eu só queria estar ali
      Sempre ao lado dela
      Eu não tinha aonde ir
      Mas, egoísta que eu sou,
      Me esqueci de ajudar
      A ela como ela me ajudou
      E não quis me separar
      Ela também estava perdida
      E por isso se agarrava a mim também
      E eu me agarrava a ela
      Porque eu não tinha mais ninguém.

      E eu dizia: - Ainda é cedo
      cedo
      cedo
      cedo
      cedo
      cedo.

      Sei que ela terminou
      O que eu não comecei
      E o que ela descobriu
      Eu aprendi também, eu sei.
      Ela falou: - Você tem medo.
      Aí eu disse: - Quem tem medo é você.
      Falamos o que não devia
      Nunca ser dito por ninguém
      Ela me disse: - Eu não sei mais o que eu sinto por você.
      Vamos dar um tempo, um dia a gente se vê.

      E eu dizia: - Ainda é cedo
      cedo
      cedo
      cedo
      cedo
      cedo.

  6. Gimme Shelter Tocar
    • (Mick Jagger / Keith Richards)
      Ooh, see a storm it's threat'ning my very life today.
      Come on babe gimme shelter or else, I'm gonna fade away.
      Ooh, see a storm it's threat'ning my very life today.
      Burns like a red coal carpet mad bull lost its way.
      Love sister it's just a shot away It's just a shot away

      War sister it's just a shot away It's just a shot away
      It's just a shot away It's just a shot away
      It's just a shot away It's just a shot away
      Love sister it's just a kiss away It's just a kiss away
      It's just a kiss away Kiss away kiss away Kiss away kiss away Kiss away kiss away
      See the fire burning down my soul
      See the fire and there's no fucking place to go
      Where are the drugs? Where are the drugs?

      Gimme Shelter
      Come'on babe gimme shelter tonight
      Yeah, Burns Like a red coal carpet
      Burns like a red coal carpet
      See a storm it's threat'ning
      My very life, my very life, yeah
      Come on come on come on

      Gimme Shelter, Gimme Shelter, Gimme Shelter
      My very streets today

      Where are the fucking drugs? 
  7. Baader-Meinhof Blues Tocar
    • (Dado Villa-Lobos/ Renato Russo/ Marcelo Bonfá)

      A violência é tão fascinante
      E nossas vidas são tão normais
      E você passa de noite e sempre vê
      Apartamentos acesos
      Tudo parece ser tão real
      Mas você viu esse filme também.

      Andando nas ruas
      Pensei que podia ouvir
      Alguém me chamando
      Dizendo meu nome.

      Já estou cheio de me sentir vazio
      Meu corpo é quente e estou sentindo frio
      Todo mundo sabe e ninguém quer mais saber
      Afinal, amar o próximo é tão demodé.

      Essa justiça desafinada
      É tão humana e tão errada
      Nós assistimos televisão também
      Qual é a diferença?

      Não estatize meus sentimentos
      Pra seu governo,

      O meu estado é independente.
  8. A Montanha Mágica Tocar
    • (Dado Villa-Lobos / Renato Russo / Marcelo Bonfá)

      Sou meu próprio líder: ando em círculos
      Me equilibro entre dias e noites
      Minha vida toda espera algo de mim
      Meio-sorriso, meia-lua, toda tarde.

      Minha papoula da Índia
      Minha flor da Tailândia
      És o que tenho de suave
      E me fazes tão mal.

      Ficou logo o que tinha ido embora
      Estou só um pouco cansado
      Não sei se isto termina logo
      Meu joelho dói
      E não há nada a fazer agora.

      Para que servem os anjos?
      A felicidade mora aqui comigo
      Até segunda ordem
      Um outro agora vive minha vida
      Sei o que ele sonha, pensa e sente
      Não é por incidência a minha indiferença
      Sou uma cópia do que faço
      O que temos é o que nos resta
      E estamos querendo demais

      Minha papoula da Índia
      Minha flor da Tailândia
      És o que tenho de suave
      E me fazes tão mal.

      Existe um descontrole, que corrompe e cresce
      Pode até ser, mais estou pronto pra mais uma
      O que é que desvirtua e ensina?
      O que fizemos de nossas próprias vidas?

      O mecanismo da amizade,
      A matemática dos amantes -
      Agora só artesanato:
      O resto são escombros.

      Mas é claro que não vamos lhe fazer mal
      Nem é por isso que estamos aqui
      Cada criança com seu próprio canivete
      Cada líder com seu próprio .38

      Minha papoula da Índia
      Minha flor da Tailândia
      Chega - vou mudar a minha vida.
      Deixa o copo encher até a borda
      Que eu quero um dia de sol num copo d'água.

  9. Eu Sei Tocar
    • (Renato Russo)

      Sexo verbal não faz meu estilo
      Palavras são erros e os erros são seus
      Não quero lembrar que eu erro também

      Um dia pretendo tentar descobrir
      Porque é mais forte quem sabe mentir
      Não quero lembrar que eu minto também

      Eu sei

      Feche a porta do seu quarto
      Porque se toca o telefone pode ser alguém
      Com quem você quer falar
      Por horas e horas e horas

      A noite acabou, talvez tenhamos que fugir sem você
      Mas não, não vá agora, quero honras e promessas
      Lembranças e estórias

      Somos pássaro novo longe do ninho

      Eu sei

  10. "Índios" Tocar
    • (Renato Russo)

      Quem me dera, ao menos uma vez,
      Ter de volta todo o ouro que entreguei
      A quem conseguiu me convencer
      Que era prova de amizade
      Se alguém levasse embora até o que eu não tinha.

      Quem me dera, ao menos uma vez
      Esquecer que acreditei que era por brincadeira
      Que se cortava sempre um pano-de-chão
      De linho nobre e pura seda.

      Quem me dera, ao menos uma vez,
      Explicar o que ninguém consegue entender:
      Que o que aconteceu ainda está por vir
      E o futuro não é mais como era antigamente.

      Quem me dera, ao menos uma vez,
      Provar que quem tem mais do que precisa ter
      Quase sempre se convence que não tem o bastante
      Fala demais por não ter nada a dizer.

      Quem me dera, ao menos uma vez,
      Que o mais simples fosse visto como o mais importante,
      Mas nos deram espelhos
      E vimos um mundo doente.

      Quem me dera, ao menos uma vez,
      Entender como um só Deus ao mesmo tempo é três
      E esse mesmo Deus foi morto por vocês -
      É só maldade então, deixar um Deus tão triste.

      Eu quis o perigo e até sangrei sozinho.
      Entenda - assim pude trazer
      Você de volta pra mim
      Quando descobri que é sempre só você
      Que me entende do iní­cio ao fim
      E é só você que tem a cura do meu vício
      De insistir nessa saudade que eu sinto
      De tudo que eu ainda não vi.

      Quem me dera, ao menos uma vez,
      Acreditar por um instante em tudo que existe
      E acreditar que o mundo é perfeito
      E Que todas as pessoas são felizes...

      Quem me dera, ao menos uma vez,
      Fazer com que o mundo saiba que seu nome
      Está em tudo e mesmo assim
      Ninguém lhe diz ao menos obrigado.

      Quem me dera, ao menos uma vez,
      Como a mais bela tribo, dos mais belos índios,
      Não ser atacado, por ser inocente.

      Eu quis o perigo e até sangrei sozinho.
      Entenda - assim pude trazer
      Você de volta pra mim
      Quando descobri que é sempre só você
      Que me entende do iní­cio ao fim
      E é só você que tem a cura do meu vício
      De insistir nessa saudade que eu sinto
      De tudo que eu ainda não vi.

      Nos deram espelhos e vimos um mundo doente -
      Tentei chorar e não consegui.

  11. A Dança Tocar
    • (Dado Villa-Lobos / Renato Russo / Marcelo Bonfá. Arranjo: Renato Rocha)

      Não sei o que é direito
      Só vejo preconceito
      E a sua roupa nova
      É só uma roupa nova
      Você não tem idéias
      Pra acompanhar a moda
      Tratando as meninas
      Como se fossem lixo
      Ou então espécie rara
      Só a você pertence
      Ou então espécie rara
      Que você não respeita
      Ou então espécie rara
      Que é só um objeto
      Pra usar e jogar fora
      Depois de ter prazer.

      Você é tão moderno
      Se acha tão moderno
      Mas é igual a seus pais
      É só questão de idade
      Passando dessa fase
      Tanto fez e tanto faz.

      Você com as suas drogas
      E as suas teorias
      E a sua rebeldia
      E a sua solidão
      Vive com seus excessos
      Mas não tem mais dinheiro
      Pra comprar outra fuga
      Sair de casa então
      Então é outra festa
      É outra sexta-feira
      Que se dane o futuro
      Você tem a vida inteira
      Você é tão esperto
      Você está tão certo
      Mas você nunca dançou
      Com ódio de verdade.

      Você é tão esperto
      Você está tão certo
      Que você nunca vai errar
      Mas a vida deixa marcas
      Tenha cuidado
      Se um dia você dançar.

      Nós somos tão modernos
      Só não somos sinceros
      Nos escondemos mais e mais
      É só questão de idade
      Passando dessa fase

      Tanto fez e tanto faz.        
  12. Mais do Mesmo Tocar
    • (Dado Villa-Lobos/ Renato Russo/ Renato Rocha/ Marcelo Bonfá)

      Ei menino branco o que é que você faz aqui
      Subindo o morro pra tentar se divertir
      Mas já disse que não tem
      E você ainda quer mais
      Por que você não me deixa em paz?

      Desses vinte anos nenhum foi feito pra mim
      E agora você quer que eu fique assim igual a você
      É mesmo, como vou crescer se nada cresce por aqui?
      Quem vai tomar conta dos doentes?
      E quando tem chacina de adolescentes
      Como é que você se sente?

      Em vez de luz tem tiroteio no fim do túnel.
      Sempre mais do mesmo
      Não era isso que você queria ouvir?

      Bondade sua me explicar com tanta determinação
      Exatamente o que eu sinto, como penso e como sou
      Eu realmente não sabia que eu pensava assim
      E agora você quer um retrato do país
      Mas queimaram o filme
      E enquanto isso, na enfermaria
      Todos os doentes estão cantando sucessos populares.
      (e todos os índios foram mortos).

  13. Soldados Tocar
    • (Renato Russo / Marcelo Bonfá)

      Nossas meninas estão longe daqui
      Não temos com quem chorar e nem pra onde ir
      Se lembra quando era só brincadeira
      Fingir ser soldado a tarde inteira?
      Mas agora a coragem que temos no coração
      Parece medo da morte mas não era então.
      Tenho medo de lhe dizer o que eu quero tanto
      Tenho medo e eu sei porquê:
      Estamos esperando.
      Quem é o inimigo?
      Quem é você?
      Nos defendemos tanto tanto sem saber
      Porque lutar.

      Nossas meninas estão longe daqui
      E de repente eu vi você cair
      Não sei armar o que eu senti
      Não sei dizer que vi você ali.
      Quem vai saber o que você sentiu?
      Quem vai saber o que você pensou?
      Quem vai dizer agora o que eu não fiz?
      Como explicar pra você o que eu quis

      Somos soldados
      Pedindo esmola
      E a gente não queria lutar.

  14. "Música Urbana 2" Tocar
    • (Renato Russo)

      Em cima dos telhados as antenas de TV tocam música urbana,
      Nas ruas os mendigos com esparadrapos podres
      Cantam música urbana,
      Motocicletas querendo atenção às três da manhã -
      É só música urbana.

      Os PMs armados e as tropas de choque vomitam música urbana
      E nas escolas as crianças aprendem a repertir a música urbana.
      Nos bares os viciados sempre tentam conseguir a música urbana.

      O vento forte seco e sujo em cantos de concreto
      Parece música urbana
      E a matilha de crianças sujas no meio da rua -
      Música urbana.
      E nos pontos de ônibus estão todos ali: música urbana.

      Os uniformes
      Os cartazes
      Os cinemas
      E os lares
      Nas favelas
      Coberturas
      Quase todos os lugares.

      E mais uma criança nasceu.
      Não há mais mentiras nem verdades aqui
      Só há música urbana.

  15. On The Way Home Tocar
    • (Neil Young)

      When the dream came
      I held my breath with my eyes closed
      I went insane,
      Like a smoke ring day
      When the wind blows

      Now I won't be back till later on
      If I do come back at all
      But you know me, and I miss you now.

      In a strange game
      I saw myself as you knew me
      When the change came,
      And you had a chance to see through me

      Though the other side is just the same
      You can tell my dream is real
      Because I love you, can you see me now.

      Though we rush ahead to save our time
      We are only what we feel
      And I love you, can you feel it now?

  16. Maurício Tocar
    • (Dado Villa-Lobos / Renato Russo / Marcelo Bonfá)

      Já não sei dizer se ainda sei sentir
      O meu coração já não me pertence
      Já não quer mais me obedecer
      Parece agora estar tão cansado quanto eu.

      Até pensei que era mais por não saber
      Que ainda sou capaz de acreditar.
      Me sinto tão só
      E dizem que a solidão até que me cai bem.

      Às vezes faço planos
      Às vezes quero ir
      Pra algum país distante e
      Voltar a ser feliz.

      Já não sei dizer o que aconteceu
      Se tudo que sonhei foi mesmo um sonho meu
      Se meu desejo então já se realizou
      O que fazer depois
      Pra onde é que eu vou?

      Eu vi você voltar pra mim.

  17. Há Tempos Tocar
    • (Dado Villa-Lobos / Renato Russo / Marcelo Bonfá)

      Parece cocaína, mas é só tristeza, talvez tua cidade
      Muitos temores nascem do cansaço e da solidão
      E descompasso e o desperdício herdeiros são
      Agora da virtude que perdemos.

      Há tempos tive um sonho
      Não me lembro não me lembro
      Tua tristeza é tão exata
      E hoje o dia é tão bonito
      Já estamos acostumados
      A não termos mais nem isso.

      Os sonhos vêm
      E os sonhos vão
      O resto é imperfeito.

      Dissestes que se tua voz tivesse força igual
      À imensa dor que sentes
      Teu grito acordaria
      Não só a tua casa
      Mas a vizinhança inteira.
      E há tempos nem os santos têm ao certo
      A medida da maldade
      Há tempos são os jovens que adoecem
      Há tempos o encanto está ausente
      E há ferrugem nos sorrisos
      Só o acaso estende os braços
      A quem procura abrigo e proteção.

      Meu amor, disciplina é liberdade
      Compaixão é fortaleza
      Ter bondade é ter coragem
      E Ela disse:
      - Lá em casa tem um poço mas a água é muito limpa.

  18. Pais e Filhos Tocar
    • (Dado Villa-Lobos / Renato Russo / Marcelo Bonfá)

      Estátuas e cofres
      E paredes pintadas
      Ninguém sabe o que aconteceu
      Ela se jogou da janela do quinto andar
      Nada é fácil de entender.

      Dorme agora: É só o vento lá fora.

      Quero colo
      Vou fugir de casa
      Posso dormir aqui com vocês?
      Estou com medo
      Tive um pesadelo
      Só vou voltar depois das três.

      Meu filho vai ter nome de santo
      Quero o nome mais bonito.

      É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã
      Por que se você parar pra pensar, na verdade não há.

      Me diz, por que é que o céu é azul
      Me explica a grande fúria do mundo
      São meus filhos que tomam conta de mim
      Eu moro com a minha mãe mas meu pai vem me visitar
      Eu moro na rua, não tenho ninguém
      Eu moro em qualquer lugar
      Já morei em tanta casa que nem me lembro mais
      Eu moro com os meus pais

      É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã
      Por que se você parar pra pensar, na verdade não há.

      Sou uma gota d'água
      Sou um grão de areia
      Você me diz que seus pais não entendem
      Mas você não entende seus pais.

      Você culpa seus pais por tudo
      E Isso é absurdo
      São crianças como você.

      O que você vai ser quando você crescer?

  19. Faroeste Caboclo Tocar
    • (Renato Russo)

      - Não tinha medo o tal João de Santo Cristo,
      Era o que todos diziam quando ele se perdeu.
      Deixou pra trás todo o marasmo da fazenda
      Só pra sentir no seu sangue o ódio que Jesus lhe deu.
      Quando criança só pensava em ser bandido,
      Ainda mais quando com um tiro de um soldado o pai morreu
      Era o terror da cercania onde morava
      E na escola até o professor com ele aprendeu.

      Ia pra igreja só pra roubar o dinheiro
      Que as velhinhas colocavam na caixinha do altar.
      Sentia mesmo que era mesmo diferente
      Sentia que aquilo ali não era o seu lugar
      Ele queria sair para ver o mar
      E as coisas que ele via na televisão
      Juntou dinheiro para poder viajar
      E de escolha própria, escolheu a solidão

      Comia todas as menininhas da cidade
      De tanto brincar de médico, aos doze era professor.
      Aos quinze, foi mandado para o reformatório
      Onde aumentou seu ódio diante de tanto terror.

      Não entendia como a vida funcionava -
      Discriminação por causa da sua classe ou sua cor
      Ficou cansado de tentar achar resposta
      E comprou uma passagem, foi direto a Salvador.

      E lá chegando foi tomar um cafezinho
      E encontrou um boiadeiro com quem foi falar
      E o boiadeiro tinha uma passagem e ia perder a viagem
      Mas João foi lhe salvar
      Dizia ele: - Estou indo pra Brasília
      Neste país lugar melhor não há.
      Estou precisando visitar a minha filha
      Então fico aqui e você vai no meu lugar.

      E João aceitou sua proposta e num ônibus entrou no Planalto Central
      Ele ficou bestificado com a cidade
      Saindo da rodoviária, viu as luzes de Natal.
      - Meu Deus, mas que cidade linda,
      No ano-novo eu começo a trabalhar.
      Cortar madeira, aprendiz de carpinteiro
      Ganhava três mil por mês em Taguatinga

      Na sexta-feira ia pra zona da cidade
      Gastar todo o seu dinheiro de rapaz trabalhador
      E conhecia muita gente interessante
      Até um neto bastardo do seu bisavô:
      Um peruano que vivia na Bolívia
      E muitas coisas trazia de lá
      Seu nome era Pablo e ele dizia
      Que um negócio ele ia começar.

      E o Santo Cristo até a morte trabalhava
      Mas o dinheiro não dava pra ele se alimentar
      E ouvia às sete horas o noticiário
      Que sempre dizia que o seu ministro ia ajudar
      Mas ele não queria mais conversa e decidiu que,
      como Pablo, ele ia se virar
      Elaborou mais uma vez seu plano santo
      E, sem ser crucificado, a plantação foi começar.

      Logo logo os malucos da cidade souberam da novidade:
      - Tem bagulho bom ai!
      E João de Santo Cristo ficou rico
      E acabou com todos os traficantes dali.
      Fez amigos, freqüentava a Asa Norte
      E ia pra festa de rock, pra se libertar
      Mas de repente
      Sob uma má influência dos boyzinhos da cidade
      Começou a roubar.

      Já no primeiro roubo ele dançou
      E pro inferno ele foi pela primeira vez
      Violência e estupro do seu corpo
      - Vocês vão ver, eu vou pegar vocês.

      Agora o Santo Cristo era bandido
      Destemido e temido no Distrito Federal
      Não tinha nenhum medo de polícia
      Capitão ou traficante, playboy ou general.
      Foi quando conheceu uma menina
      E de todos os seus pecados ele se arrependeu.
      Maria Lúcia era uma menina linda
      E o coração dele
      Pra ela o Santo Cristo prometeu
      Ele dizia que queria se casar
      E carpinteiro ele voltou a ser
      - Maria Lúcia, pra sempre vou te amar
      E um filho com você eu quero ter.

      O tempo passa e um dia vem à porta um senhor de alta classe com dinheiro na mão
      E ele faz uma proposta indecorosa e diz que espera uma resposta.
      Uma resposta do João:
      - Não boto bomba em banca de jornal nem em colégio de criança
      Isso eu não faço não
      E não protejo general de dez estrelas, que fica atrás da mesa
      Com o cu na mão.
      E é melhor senhor sair da minha casa
      Nunca brinque com um Peixes com ascendente Escorpião.
      Mas antes de sair, com ódio no olhar, o velho disse:
      - Você perdeu sua vida, meu irmão.

      Você perdeu a sua vida meu irmão. Você perdeu a sua vida meu irmão
      Essas palavras vão entrar no coração
      E Eu vou sofrer as conseqüências como um cão.
      Não é que o Santo Cristo estava certo
      Seu futuro era incerto e ele não foi trabalhar
      Se embebedou e no meio da bebedeira descobriu que tinha outro
      Trabalhando em seu lugar
      Falou com Pablo que queria um parceiro
      E também tinha dinheiro e queria se armar
      Pablo trazia o contrabando da Bolívia e Santo Cristo revendia em Planaltina

      Mas acontece que um tal de Jeremias, traficante de renome,
      Apareceu por lá
      Ficou sabendo dos planos de Santo Cristo
      E decidiu que, com João ele ia acabar.
      Mas Pablo trouxe uma Winchester-22
      E Santo Cristo já sabia atirar
      E decidiu usar a arma só depois
      Que Jeremias começasse a brigar

      (O Jeremias, maconheiro sem-vergonha, organizou a Rockonha
      E fez todo mundo dançar)

      Desvirginava mocinhas inocentes
      E dizia que era crente mas não sabia rezar

      E Santo Cristo há muito não ia pra casa
      E a saudade começou a apertar
      - Eu vou embora, eu vou ver Maria Lúcia
      Já tá em tempo de a gente se casar.

      Chegando em casa então ele chorou
      E pro inferno ele foi pela segunda vez
      Com Maria Lúcia Jeremias se casou
      E um filho nela ele fez.

      Santo Cristo era só ódio por dentro e então o Jeremias pra um duelo ele chamou
      Amanhã às duas horas na Ceilândia, em frente ao lote 14, é pra lá que eu vou
      E você pode escolher as suas armas que eu acabo mesmo com você, seu porco traidor
      E mato também Maria Lúcia, aquela menina falsa pra quem jurei o meu amor

      Santo Cristo não sabia o que fazer
      Quando viu o repórter da televisão
      Que deu notícia do duelo na TV
      Dizendo a hora e o local e a razão

      No sábado então, às duas horas, todo o povo
      Sem demora foi lá só para assistir
      Um homem que atirava pelas costas e acertou o Santo Cristo
      E começou a sorrir.
      Sentindo o sangue na garganta,
      João olhou pras bandeirinhas e pro povo a aplaudir
      E olhou pro sorveteiro e pras câmeras e
      A gente da TV que filmava tudo ali.

      E se lembrou de quando era uma criança e de tudo o que vivera até ali
      E decidiu entrar de vez naquela dança
      - Se a via-crucis virou circo, estou aqui.

      E nisso o sol cegou seus olhos e então Maria Lúcia ele reconheceu
      Ela trazia a Winchester-22
      A arma que seu primo Pablo lhe deu

      - Jeremias, eu sou homem. coisa que você não é.
      E não atiro pelas costas não.
      Olha pra cá filha-da-puta, sem-vergonha
      Dá uma olhada no meu sangue
      E vem sentir o teu perdão.

      E Santo Cristo com a Winchester-22
      Deu cinco tiros no bandido traidor
      Maria Lúcia se arrependeu depois
      E morreu junto com João, seu protetor

      E o povo declarava que João de Santo Cristo era santo porque sabia morrer
      E a alta burguesia da cidade não acreditou na estória que eles viram na TV
      E João não conseguiu o que queria quando veio pra Brasília, com o diabo ter
      Ele queria era falar pro presidente
      Pra ajudar toda essa gente
      Que só faz sofrer.

  20. Exit Music: Rhapsody Blue Tocar
    • (George Gershwin)

      Instrumental