O último álbum de estúdio da Legião Urbana foi lançado em 1997, um ano após a morte de Renato Russo. Os registros eram a continuação do material que ficara de fora de “A Tempestade”.
Após o falecimento e a consequente publicação de tantas informações mantidas em sigilo por anos, a respeito da saúde de Renato, as letras daquela fase se tornaram mais explícitas e o tom de despedida era evidente. Apesar disso, Uma Outra Estação é um pouco mais leve do que o anterior. Enquanto “A Tempestade ou O Livro dos Dias” era uma espécie de “adeus”, Dado e Bonfá tentaram fazer de Uma Outra Estação um disco com ares de celebração à vida.
Para isso, as faixas de abertura e encerramento eram peças fundamentais. “Riding song” iniciava o disco com falas dos músicos no começo da carreira, nas quais eles se apresentavam e falavam de suas vidas e sonhos naquela época, Até Negrete reapareceu em voz e baixo. Na outra ponta, fechando o álbum, a “Travessia do Eixão”, música do grupo brasiliense Liga Tripa que dividira o palco com a Legião no primeiro show, em Patos de Minas, em 1982. O Liga Tripa era o grupo dos hippies que se davam bem com os punks. Naquele contexto, a canção clássica da adolescência da Turma da Colina atribuía um clima de volta para casa, de fechamento de ciclo a “Uma outra estação”. As vozes em coro, acompanhadas pelo arranjo acústico, de roda de acampamento, clima de turma de amigos, era o happy end possível e na medida.
No resto do disco, as últimas músicas que Renato compôs se encontravam com algumas velhas canções que nunca tinham tido vez no repertório da Legião. Na época das gravações, o vocalista já sabia de sua fragilidade física e por isso tentou deixar o máximo de músicas registradas. Com esse intuito, ele gravou “Dado viciado” e “Marcianos invadem a Terra”, músicas bem anteriores e conhecida pelos fãs mais dedicados. Ambas tinham um tom de saudosismo juvenil que contrastava com a gravidade dos momentos finais e até mesmo com a proporção que a Legião Urbana tinha tomado na vida do país.
Mas o disco ainda tinha canções duras como “Clarisse”, que Renato não aceitara lançar no álbum anterior por achá-la pesada demais em seus dez minutos contando a história de uma adolescente de 14 anos que tentava se matar. “La Maison Dieu” descrevia a aproximação da morte e seu nome era tirado de uma citação que se fazia na Idade Média a locais como hospitais, nos quais a morte e a transcendência se apresentavam aos enfermos. “Comédia romântica” traz uma levada folk, com inserções de guitarras fortes, mas que atribui leveza ao clima soturno que algumas outras faixas tinham. “Antes das seis” era uma balada ingênua conduzida por uma harmonia pop de violão e um fraseado simples de guitarra. Era também uma outra canção mais leve, que emendava em “Mariane”, a única faixa que não foi gravada na ocasião. Ela foi recuperada de um take feito nos estúdios da EMI na década de 80.
A ausência de Renato está expressa definitivamente em “Sagrado coração”. A música é singela e a letra, disponível no encarte, é triste. Para esta canção, Renato não deixou registro de voz.
Após este disco, algumas coletâneas e alguns projetos especiais ainda seriam lançados, mas com Uma Outra Estação a banda encerra sua obra autoral.
(Dado Villa-Lobos / Renato Russo / Marcelo Bonfá)
Eu já sei o que eu vou ser
Ser quando crescer
(Dado Villa-Lobos / Renato Russo / Marcelo Bonfá)
Sei que não tenho a força que tens
Se me vejo feliz quase sempre exijo um talvez
Ela mora perto de um vulcão
E meu coração suburbano espera riquezas
maiores
Eu sigo o calendário maia
E sou descendente dos astecas
Hoje vai ter prova
Mas no final da aula
Acho que tem futebol
Gosto quando estou feliz
Gosto quando sorris para mim
Estou longe, longe
Estou em outra estação
Não me digam como devo ser
Gosto do jeito que sou
Quem insiste em julgar os outros
Sempre tem alguma coisa pra esconder
Teu corpo alimenta meu espírito
Teu espírito alegra minha mente
Tua mente descansa meu corpo
Teu corpo aceita o meu como a um irmão
Longe longe, estou em outra estação
Todos fazem promessas demais
Temos muito o que aprender
É um feitiço tão latino
Essa preguiça ser feitiço
Mas tudo bem
Voltarás na terça-feira
És fogo e gelo ao mesmo tempo
E vai ser bom
Do Equador, da Venezuela, do Uruguai
Teremos o fim-de-semana só pra nós
Venha comigo
Não tenha medo
Tem muita gente
Que pensa o mesmo
Estou longe, longe
Estou em outra estação.
Estou longe, longe
(Dado Villa-Lobos / Renato Russo / Marcelo Bonfá)
Eu quis você
E me perdi
Você não viu
E eu não senti
Não acredito nem vou julgar
Você sorriu, ficou e quis me provocar
Quis dar uma volta em todo o mundo
Mas não é bem assim que as coisas são
Seu interesse é só traição
E mentir é fácil demais
Mentir é fácil demais
Tua indecência não serve mais
Tão decadente e tanto faz
Quais são as regras? O que ficou?
O seu cinismo, essa sedução
Volta pro esgoto baby
E vê se alguém lhe quer
O que ficou é esse modelito da estação passada
Extorsão e drogas demais
Todos já sabem o que você faz
Teu perfume barato, teus truques banais
Você acabou ficando pra trás
Porque mentir é fácil demais
Mentir é fácil demais
Volta pro esgoto baby
E vê se alguém lhe quer
(Dado Villa-Lobos / Renato Russo / Marcelo Bonfá)
Se dez batalhões viessem à minha rua
E 20 mil soldados batessem à minha porta
À sua procura
Eu não diria nada
Porque lhe dei minha palavra
Teu corpo branco já pegando pêlo
Me lembra o tempo em que você era pequeno
Não pretendo me aproveitar
E de qualquer forma quem volta
Sozinho pra casa sou eu
Sexo compra dinheiro e companhia
Mas nunca amor e amizade, eu acho
E depois de um dia difícil
Pensei ter visto você
Entrar pela minha janela e dizer:
- Eu sou a tua morte
Vim conversar contigo
Vim te pedir abrigo
Preciso do teu calor
Eu sou
Eu sou
Eu sou a pátria que lhe esqueceu
O carrasco que lhe torturou
O general que lhe arrancou os olhos
O sangue inocente
De todos os desaparecidos
O choque elétrico e os gritos
- Parem por favor, isto dói
Eu sou
Eu sou
Eu sou a tua morte
E vim lhe visitar como amigo
Devemos flertar com o perigo
Seguir nossos instintos primitivos
Quem sabe não serão estes
Nossos últimos momentos divertidos?
Eu sou a lembrança do terror
De uma revolução de merda
De generais e de um exército de merda
Não nunca poderemos esquecer
Nem devemos perdoar
Eu não anistiei ninguém
Abra os olhos e o coração
Estejamos alertas
Porque o terror continua
Só mudou de cheiro
E de uniforme
Eu sou a tua morte
E lhe quero bem
Esqueça o mundo, vim lhe explicar o que virá
Porque eu sou, eu sou, eu sou
(Dado Villa-Lobos / Renato Russo / Marcelo Bonfá)
Estou cansado de ser vilipendiado, incompreendido e descartado
Quem diz que me entende nunca quis saber
Aquele menino foi internado numa clínica
Dizem que por falta de atenção dos amigos, das lembranças
Dos sonhos que se configuram tristes e inertes
Como uma ampulheta imóvel, não se mexe, não se move, não trabalha
E Clarisse está trancada no banheiro
E faz marcas no seu corpo com seu pequeno canivete
Deitada no canto, seus tornozelos sangram
E a dor é menor do que parece
Quando ela se corta ela se esquece
Que é impossível ter da vida calma e força
Viver em dor, o que ninguém entende
Tentar ser forte a todo e cada amanhecer.
Uma de suas amigas já se foi
Quando mais uma ocorrência policial
Ninguém entende, não me olhe assim
Com este semblante de bom-samaritano
Cumprindo o seu dever, como se eu fosse doente
Como se toda essa dor fosse diferente, ou inexistente
Nada existe pra mim, não tente
Você não sabe e não entende
E quando os antidepressivos e os calmantes não fazem mais efeito
Clarisse sabe que a loucura está presente
E sente a essência estranha do que é a morte
Mas esse vazio ela conhece muito bem
De quando em quando é um novo tratamento
Mas o mundo continua sempre o mesmo
O medo de voltar pra casa à noite
Os homens que se esfregam nojentos
No caminho de ida e volta da escola
A falta de esperança e o tormento
De saber que nada é justo e pouco é certo
E que estamos destruindo o futuro
E que a maldade anda sempre aqui por perto
A violência e a injustiça que existe
Contra todas as meninas e mulheres
Um mundo onde a verdade é o avesso
E a alegria já não tem mais endereço
Clarisse está trancada no seu quarto
Com seus discos e seus livros, seu cansaço
Eu sou um pássaro
Me trancam na gaiola
E esperam que eu cante como antes
Eu sou um pássaro
Me trancam na gaiola
Mas um dia eu consigo resistir
E vou voar pelo caminho mais bonito
Clarisse só tem 14 anos
(Schubert)
Instrumental
(Dado Villa-Lobos / Renato Russo / Marcelo Bonfá)
Será que eu sou capaz
De enfrentar o teu amor
Que me traz insegurança
E verdade demais?
Será que eu sou capaz?
Veja bem quem eu sou
Com teu amor eu quero que sintas dor
Eu quero ver-te em sangue e ser teu credor
Veja bem quem eu sou
Trouxe flores mortas pra ti
Quero rasgar-te e ver o sangue manchar
Toda a pureza que vem do teu olhar
Eu não sei mais sentir
(ODimitri Tiomkin / Ned Washigton)
Instrumental
(Tema do Filme Matar ou Morrer)
(Dado Villa-Lobos / Renato Russo / Marcelo Bonfá)
Acho que só agora eu começo a perceber
Tudo o que você me disse
Pelo menos o que lembro que aprendi com você
Está realmente certo
Bem mais certo do que eu queria acreditar
Você gosta mesmo de mim
Se arriscando a me perder assim
Ao me explicar o que eu não quero ouvir.
Ainda não estou pronto pra saber a verdade
Ou não estava
Até uma estação atrás.
Acho que só agora eu começo a ver
Que tudo que você me disse
É o que você gostaria que tivessem dito pra você
Se o tempo pudesse voltar dessa vez.
Sou eu mesmo e serei eu mesmo então
E não há nada de errado comigo, não
Não, não, não
Não preciso de modelos
Não preciso de heróis
Eu tenho meus amigos
E quando a vida dói
Eu tento me concentrar
Num caminho fácil
Sou eu mesmo e serei eu mesmo então
E eu queria que o tempo
Pudesse voltar dessa vez
Oh yeah
(Renato Russo)
* O personagem desta canção não tem referência alguma a Dado Villa-Lobos
Você não tem heroína, então usa Algafan
Viciou os seus primos, talvez sua irmã
Mas aqui não tem Village, rua 42
Me diz pra onde é que é que você vai depois?
Por que você deixou suas veias fecharem?
Não tem mais lugar pras agulhas entrarem
Você não conversa, não quer mais falar
Só tem as agulhas pra lhe ajudar
Cadê o bronze no corpo, os olhos azuis?
O seu corpo tem marca de sangue e pus
Você nem sabe se é março ou fevereiro
Trancado o dia inteiro dentro do banheiro
Dado
Dado
Dado
O que fizeram com você?
Cadê os seus planos, cadê as meninas?
Você agora enche a cara e cai pelas esquinas.
Eu quero você mas não vou lhe ajudar
Não me peça dinheiro, não vou lhe entregar
Cadê a criança? Meu primo e irmão
Se perdeu por aí, com seringas na mão.
Dado
Dado
Dado
O que fizeram com você?
(Renato Russo)
Diga adeus e atravesse a rua
Voamos alto depois das duas
Mas as cervejas acabaram e os cigarros também.
Cuidado com a coisa coisando por aí
A coisa coisa sempre e também coisa por aqui
Sequestra o seu resgate, envenena a sua atenção;
É verbo e substantivo/adjetivo e palavrão.
E o carinha do rádio não quer calar a boca
E quer o meu dinheiro e as minhas opiniões
Ora, se você quiser se divertir
Invente suas próprias canções.
Será que existe vida em Marte?
Janelas de hotéis
Garagens vazias
Fronteiras
Granadas
Lençóis
E existem muitos formatos
Que só têm verniz e não tem invenção
E tudo aquilo contra o que sempre lutam
É exatamente tudo aquilo o que eles são
Marcianos invadem a Terra
Estão inflando o meu ego com ar.
E quando acho que estou quase chegando
Tenho que dobrar mais uma esquina
E mesmo se eu tiver a minha liberdade
Não tenho tanto tempo assim
E mesmo se eu tiver a minha liberdade:
"Será que existe vida em Marte?"
(Dado Villa-Lobos / Renato Russo)
Quem inventou o amor?
Me explica por favor
Quem inventou o amor?
Me explica por favor
Vem e me diz o que aconteceu
Faz de conta que passou
Quem inventou o amor?
Me explica por favor
Daqui vejo seu descanso
Perto do seu travesseiro
Depois quero ver se acerto
Dos dois quem acorda primeiro
Quem inventou o amor?
Me explica por favor
Quem inventou o amor?
Me explica por favor
Enquanto a vida vai e vem
Você procura achar alguém
Que um dia possa lhe dizer
- Quero ficar só com você
(Renato Russo)
I've been working all day
I've been thinking a lot
I've been doing some things
That are not quite right
I've been thinking about you
I've been thinking about you
When will you return?
I've been working all day
I've been thinking a lot
I've been lost in the morning
I don't know what it costs
Will you find me there?
And I guess it's just a phase
I don't know where I'm going
And I guess it's just a phase
I don't know where I'm going
I've been working all day
I've been thinking a lot
I've been lost in the morning
I don't know what it costs
I don't think about you
I will be able to do
Will you let me be?
And I don't know where I'm going
I guess it's just a phase
And I don't know where I'm going
I guess it's just a phase
Just a phase
(Renato Russo)
* Esta canção não possui registro da voz de Renato
Sei que tenho um coração
Mas é difícil de explicar
De falar de bondade e gratidão
E estas coisas que ninguém gosta de
falar
Falam de algum lugar
Mas onde é que está?
Onde há virtude e inteligência
E as pessoas são sensíveis
E que a luz no coração
É o que pode me salvar
Mas não acredito nisso
Tento mas é só de vez em quando
Onde está este lugar
Onde está essa luz ?
Se o que vejo é tão triste
E o que fazemos tão errado ?
E me disseram! Este lugar pode estar
sempre ao seu lado
E a alegria dentro de você
Porque sua vida é luz
E quando vi seus olhos
E a alegria no seu corpo
E o sorriso nos seus lábios
Eu quase acreditei
Mas é tão difícil
Por isso lhe peço por favor
Pense em mim, ore por mim
E me diga: - este lugar distante está
dentro de você
E me diga que nossa vida é luz
Diga que nossa vida é luz
Me fale do sagrado coração
Porque eu preciso de ajuda
(Nonato Veras / Nicolas Behr)
Nossa Senhora do Cerrado
Protetora dos pedestres
Que atravessam o eixão
Às seis horas da tarde
Fazei com que eu chegue são e salvo
Na casa da Noélia
Nonô Nonô Nonô Nononô...